|Destaque| O caminho das coalizões circunstanciais de interesses

Este é o quarto texto de uma série dedicada às diferentes formas pelas quais as pessoas ou grupos podem influenciar a produção de políticas públicas. Depois de considerar algumas definições conceituais básicas (representação em geral e representação política e de interesses em específico), discutir a profissionalização da atividade de representação de interesses no Brasil e o intenso desgaste sofrido por essa atividade profissional nos últimos anos, vamos falar de algo tão pragmático quanto útil: coalizões circunstanciais de interesses.




Os impactos que ajustes de expectativas podem ter em diferentes esferas da nossa vida não devem ser desprezados: relações profissionais e pessoais podem ser mais produtivas e reconfortantes, quando não alimentamos expectativas ingênuas ou exageradas acerca delas. Na esfera política não é diferente: grupos com interesses distintos podem convergir circunstancialmente, em objetivos específicos, e se beneficiar da troca de informações ou de uma atuação conjunta, mesmo preservando divergências substantivas.

Esse raciocínio talvez seja mais verdadeiro quando se tem no horizonte causas consideradas (pelo espírito do nosso tempo) nobres, como a redução da pobreza e das desigualdades ou a preservação do meio ambiente. No primeiro caso, os efeitos positivos de políticas focalizadas de combate à pobreza na atividade econômica, gerando mais consumo, emprego e renda, estão solidamente documentados em pesquisas empíricas (o uso político desses benefícios não está em questão aqui): veja-se, por exemplo, os casos do Bolsa Família no Brasil e do Prospera no México.

Outro exemplo. A pandemia de covid-19, ao acelerar transformações tecnológicas, escancarou o abismo que separa uma minoria, possuidora de celulares e computadores parrudos e permanentemente conectados a redes de alta velocidade, de uma maioria, que ou não dispõe de qualquer dispositivo ou conexão ou depende de aparelhos e conectividade precários.

Essa realidade está, sem surpresas, associada aos níveis de renda, como mostra um estudo recente: a minoria plenamente conectada possui rendimento médio de R$ 3.530,00, enquanto desconectados e sub conectados ganham R$ 1.413,00 e 1.933,00, respectivamente. As consequências em termos de produtividade e geração de renda são evidentes: estima-se que se os mais pobres estivessem plenamente conectados à internet, sua renda poderia crescer 15,3% – injetando R$ 75,4 bilhões adicionais na economia e desencadeando os conhecidos efeitos positivos nos níveis de consumo, emprego e renda.

Tudo considerado, a causa da redução da pobreza e das desigualdades não deve interessar apenas a quem acha constrangedor viver opulentamente em meio à miséria, mas também a quem lucraria com um mercado mais pujante. Em outros termos, há tanto razões morais quanto econômicas para se desejar uma sociedade menos pobre e desigual. Sem falar em razões político-eleitorais.

No que se refere à preservação do meio ambiente, o cenário é semelhante. A preservação de ecossistemas ao redor mundo passou a ser monitorada porque dela depende a sobrevivência do planeta. Compreensivelmente, cada vez mais pessoas, grupos, empresas, universidades, organizações etc. passam a integrar a rede (“transnational advocacy network”) de interessados na conservação.

Nessa seara, o Brasil possui, como se sabe, imensas vantagens comparativas (atenção, liberais), que poderiam ser muito mais bem exploradas. Em primeiro lugar, temos dois terços da maior floresta tropical do planeta em nosso território, uma ativo que se torna menos valiosa à medida que a devastação aumenta. Em segundo lugar, nossa matriz energética é renovável: dominada por hidrelétricas e com potencial imenso (que vem sendo progressivamente explorado) em termos de geração eólica e solar. Por fim, nossa agricultura possui enorme espaço para crescer com base em ganhos de produtividade, sem expansão de área plantada.

Isso porque (pelo menos) 50 milhões de hectares no país produzem apenas a metade do seu potencial, em função da degradação do solo, segundo a  Embrapa. Isso quer dizer que a baixa produtividade desses terrenos não está associada a déficits tecnológicos, mas à falta de assistência técnica adequada – como mostra o estudo intitulado Uma nova economia para uma nova era, publicado em agosto de 2020. Outro achado importante deste estudo é que o setor econômico que teria mais vantagens em uma transição rápida para uma economia de baixo carbono é justamente o agropecuário.

Isso quer dizer que agropecuaristas com visão de futuro – e, portanto, preocupados com a produtividade e a sustentabilidade de seus negócios – têm boas razões para convergir (ainda que circunstancialmente) com ambientalistas. E isso já está ocorrendo, em alguma medida: veja-se, por exemplo, o caso Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, integrada por “entidades que lideram o agronegócio no Brasil, as principais organizações civis da área de meio ambiente e clima, representantes de peso do meio acadêmico, associações setoriais e companhias líderes nas áreas de madeira, cosméticos, siderurgia, papel e celulose, entre outras”.

Outro exemplo é o ambicioso European Green Deal, cuja presidente, Ursula von der Leyen, pretende conduzir a Europa na direção de um futuro “verde” e “digital”. O que vai ao encontro do diagnóstico de Cesar Rodríguez-Garavito (Universidade de Nova York) para quem “alguns valores se tornaram transnacionais, e a preservação do planeta é um deles”. Nesse sentido, a iniciativa de todos os governadores brasileiro com o objetivo de criar o Consórcio Brasil Verde, que deve contrabalançar a postura refratária do governo federal em relação ao tema, é muito bem-vinda.

Feitas as contas, na busca por um mundo menos pobre e desigual e ao mesmo tempo mais sustentável, talvez seja mais produtivo investir na construção de coalizões circunstanciais de interesses do que na procura de grandes alianças ideológicas.


Wellington Nunes Cientista político. É professor no curso de Administração Pública e Políticas Públicas da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila); cofundador, colunista e editor-chefe do Nuances; cofundador e consultor-chefe da ARW Political Advisory.


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