Partido Republicano tornou-se o Partido de Trump?

No dia 12 de maio de 2021, a parlamentar Liz Cheney, da Casa dos Representantes dos EUA (o equivalente à nossa Câmara dos Deputados), foi destituída de seu cargo na Conferência do Partido Republicano (The Republican Conference), a liderança no partido. Essa mudança acabou marcando o domínio do ex-presidente Donald Trump sobre o GOP (Grand Old Party, apelido dos Republicanos).

Dessa forma, Trump torna-se a principal figura do partido e peça central na estratégia da organização de retomar o controle de ambas as casas legislativas (House e o Senado), em 2022, e a presidência, em 2024.

Cheney, filha do ex-vice-presidente Dick Cheney (2001-2008), era deputada pelo estado de Wyoming, em seu terceiro mandato. Recentemente, votou pelo impeachment de Trump por incitar a invasão ao Capitólio (Congresso dos EUA) e criticou o ex-presidente por suas teorias conspiratórias em relação às eleições presidenciais de 2020 (Trump ainda hoje mantém a posição de que as eleições presidenciais de 2020 foram “roubadas” sem nenhuma ividência concreta).

A queda de Cheney, e sua substituição por uma parlamentar mais alinhada ao “trumpismo” (Elise Stefanik), conta ao menos duas histórias: em específico, a consolidação de Trump como principal nome dos republicanos; e, no geral, o aspecto da captura de instituições políticas por empreendedores políticos populistas. Neste texto, discutimos a queda de Cheney sob esses dois ângulos, levando em conta a história recente do GOP e seu futuro próximo.



Por que a Conferência do GOP importa?


A Conferência do GOP na Casa dos Representantes é um órgão próximo a figura da liderança partidária no Brasil. Em nosso caso, os partidos com mais de cinco deputados têm o direito de elegerem um líder e uma série de vice-líderes com funções regimentais como escolher membros da bancada para Comissões Permanentes e Provisórias, definir pauta de votação, realizar o voto da bancada (em votações simbólicas), entre outras.

As conferências partidárias nos EUA (ou Party Caucus), nas duas casas legislativas e nos dois partidos relevantes (Democratas e Republicanos), possuem funções semelhantes, mas são mais institucionalizadas: realizam reuniões periódicas que definem as prioridades do partido, orientam a votação da bancada, servem como mediadoras na escolha de representantes para posições nas comissões do Congresso etc.

A conferência do GOP remonta a 1863, é composta por todos os parlamentares, mas possui uma estrutura hierárquica definida: Líder, Whip (em uma tradução literal, chicote) e Chairman (presidente), respectivamente. Essas posições são definidas pelo voto dos demais parlamentares.

Cheney, recentemente defenestrada, ocupava a posição de Chairman: responsável pelo dia a dia do partido, sendo a número três do GOP. Sua derrota se deu a portas fechadas, por meio de votação dos demais membros do partido. A parlamentar, no entanto, saiu do cargo atirando, prometendo aos Republicanos um horizonte sem Trump, uma espécie de retorno aos valores e propostas do partido anteriores à chegada do ex-presidente. Que valores e propostas seriam esses?



Um pouco de história do GOP


Não há espaço aqui para tratar demoradamente da história do Partido Republicano. No entanto, é necessário considerar alguns aspectos da trajetória do partido e sua “rendição” a Trump.

O GOP remonta à segunda metade do século XIX e surge, inicialmente, como um partido a representar o Norte dos EUA. As contradições entre essa parte do país, mais industrializada e rica, com o Sul, escravista e pobre, levam a guerra civil (1861-1865), que culmina com o fim oficial da escravidão no país. O presidente a declarar a proclamação da emancipação foi o republicano Abraham Lincoln.

Do outro lado, havia os democratas sulistas em defesa da escravidão. Essas posições (Republicanos identificados com valores considerados progressistas e Democratas com com conservadores) se inverteriam ao longo do século XX.

O realinhamento partidário nos EUA ocorre, sobretudo, em dois momentos: a partir da política fiscal expansionista do democrata Franklin Roosevelt para combater os efeitos da crise de 1929 (políticas keynesianas que foram batizadas como New Deal); e da declaração dos diretos civis durante o governo de seu correligionário Lyndon Johnson, na década de 60 (a partir da mobilização do movimento Negro pela garantia de direitos nos estados do Sul).

No primeiro caso, há um reposicionamento dos Republicanos, contra as intervenções estatais na economia. No segundo, os Republicanos se tornam o partido dominante nos estados do Sul.

A face moderna do partido, com políticas como contenção de gastos sociais, redução de impostos dos mais ricos, investimento militar e retórica contrária a migração, bem como o seu apoio eleitoral ser majoritariamente branco, encontraria ressonância na vitória de Ronald Reagan, nas eleições presidenciais em 1980.

Desde então, o partido esteve no comando da presidência em seis dos dez mandatos possíveis (Ronald Reagan – 1981/1988, George H. W. Bush – 1989/1992, George W. Bush – 2001/2008, Donald Trump – 2017/2020).



Trump e o novo realinhamento


Donald Trump foi eleito presidente em 2016, derrotando a democrata Hilary Clinton no Colégio Eleitoral, derrotando a democrata Hilary Clinton. Antes da disputa na eleição geral de novembro daquele ano, Trump passou pelo processo de primárias republicanas vencendo nomes consolidados do partido, como Marco Rubio (senador pela Flórida), Ted Cruz (senador pelo Texas) e Jeb Bush (governador da Flórida).

Sua campanha interna, como se sabe, foi marcada por declarações racistas, homofóbicas, machistas e uma proposta que condensou o apoio dos eleitores republicanos: a construção de um muro entre os EUA e o México.

O bilionário, que declarou falência algumas vezes, e era conhecido, sobretudo, por sua posição de apresentador de televisão, se posicionou como o “diferente” em uma disputa com o establishment republicano. O fato de ter autofinanciado parte de sua campanha nas primárias representou uma vitória discursiva contra políticos desgastados de Washington. O “nós” contra “eles”, populista, juntamente com adversários fracos, tanto nas primárias quanto na eleição geral, acabou vitorioso.

Os pormenores da vitória de Trump têm sido tratados pela literatura em Ciência Política. Mas cabe dizer que, durante o mandato, apesar das inúmeras denúncias de corrupção e a má-condução da pandemia, Trump fortaleceu sua base eleitoral. Em 2020, recebeu votação recorde para um candidato republicano: 74 milhões de votos.

Derrotado, não reconheceu o resultado do pleito, recorrendo a retórica de que a eleição seria “uma grande mentira”. 138 parlamentares republicanos (na Casa dos Representantes) seguiram o ex-presidente e votaram, em janeiro de 2021, por não certificar o resultado eleitoral em alguns estados. Mesmo com uma tentativa de golpe, consumada na invasão a sede do Congresso do país (Capitólio).



Partido Republicano pós-Trump


Atualmente, o Partido Republicano possui duas almas: o antigo establishment conservador (representado pelo ex-presidente George W. Bush, o senador Mitt Romney, a parlamentar Liz Cheney, entre outros) e a base trumpista. A deposição de Cheney demonstra que o segundo grupo está vencendo a disputa, ao menos por enquanto.

A parlamentar de Wyoming, é bom dizer, possui histórico de posicionamento conservador (0,59 em uma escala que varia entre 0, liberal, e 1, conservador), e foi leal ao governo Trump em 92,9% das votação na House, superando a média do partido. Sua derrocada não ocorreu por “excesso de liberalismo” (entendido aqui na acepção dos EUA), mas pelas críticas a Trump que, mesmo banido das redes sociais, se mantém influente no partido tanto em termos financeiros quanto ideológicos.

No primeiro caso, o ex-presidente formou um PAC (Political Action Committe) para arrecadar recursos financeiros aos candidatos alinhados a suas posições (que podem, inclusive, desafiar parlamentares críticos como Cheney nas eleições primárias). No segundo caso, a influência se dá por meio das políticas levadas a cabo pelo partido (foco na imigração) e na “guerra cultural” contra progressistas e o “politicamente correto”. Esses mecanismos, entre outros, denotam a transformação do GOP no partido de Trump.

Para além desses eventos, devemos considerar a história mais ampla que deve ser contada: a captura de instituições democráticas por populistas e, neste caso, empreendedores milionários/bilionários.

A entrada desse tipo de ator político foi analisada pelo cientista político Matteo Giglioli no artigo “Plutocratic leadership in the electoral arena: three Mitteleuropean cases of personal wealth in politics”. O conceito de “liderança plutocrática” apreende a emergência de milionários/bilionários na política como um fenômeno inserido na dinâmica de perda de confiança em instituições tradicionais, como os partidos.

Trump, e antes dele, Berlusconi (na Itália), Andrej Babiš (na República Tcheca), Frank Stronach (Áustria), entre outros, surgem na arena política com discurso populista e pesado investimento próprio na competição eleitoral. Nos três últimos casos, no entanto, os empreendedores fundam novos partidos. O caso de Trump demonstra outro aspecto: a captura de uma instituição tradicional: o partido Republicano.



O Partido de Trump?


Após a expulsão de Liz Cheney, os Democratas, imediatamente responderam dizendo que Trump estava mandando no GOP. A postagem vinculada nas redes sociais (We all know who really runs the GOP) atesta não apenas isso, mas também levanta questões sobre o próprio futuro da extrema direita populista dos EUA.

Trump era apenas um bilionário que se considerava apto para participar da vida política. Existia muita dúvida se alguém assim conseguiria ser nomeado candidato de uma instituição centenária, como o partido Republicano. Não apenas foi nomeado, mas também eleito.

Após ser derrotado em 2020, foi expulso da plataforma pelo qual governou o país, o Twitter, fala em criar sua própria rede social e até mesmo em fundar um partido. Se a expulsão de Cheney sinaliza para o domínio de Trump, talvez os Republicanos estejam de fato indo mais para a direita do espectro ideológico.

O governo Biden e seu plano mais à esquerda (política fiscal expansionista e taxação maior das fortunas), pode servir como um incentivo para essa guinada à direita do GOP. Seja como for, o fato mais relevante é que os Republicanos conseguem conviver com um nome declaradamente golpista em suas fileiras. A ver se o establishment partidário se recupera da sua própria “guerra cultural”.


Tiago Alexandre Leme Barbosa – Cientista Social. Mestre e doutorando em Ciência Política na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Escreve e atual como pesquisador nas áreas de partidos políticos, elite partidária e novos partidos.


Bruno Marques Schaefer – Cientista Social. Mestre e doutorando em Ciência Política na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Escreve e pesquisa sobre partidos políticos e financiamento eleitoral. Atua como membro pesquisador nos grupos “Partidos e Coligações Eleitorais na Nova Democracia Brasileira” e “Radiografia dos Novos Partidos brasileiros: Gêneses e Trajetórias”.


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