|Destaque| A recuperação da produção industrial global

A pandemia do novo coronavírus transformou drasticamente tudo o que conhecíamos quando governos de diversos países aderiram às regras de distanciamento social recomendadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Isolados para tentar conter a transmissão, pessoas alteraram seu cotidiano, fazendo com que regras de convivência social, hábitos de higiene e formas de trabalho ganhassem parâmetros totalmente diferentes. Na economia, a pandemia foi responsável por um terremoto que produziu novos relevos. Sobre território ainda não sedimentado, mercados foram paralisados, reconstruídos ou criados. Cadeias produtivas foram reorganizadas ou bloqueadas. Tecnologias antes subutilizadas, agora se fazem necessárias. Nesse contexto, muitos especialistas se questionaram sobre os rumos da produção industrial global e, principalmente, sobre a trajetória de recuperação da oferta e demanda de bens. Este artigo busca explorar tais pontos ao sistematizar informações da Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (Unido), instituição supranacional que monitora a manufatura de diversos países.




A recuperação em duas velocidades


No primeiro semestre de 2020, o mundo enfrentou uma crise econômica perturbadora desencadeada pela pandemia do novo coronavírus que agravou ainda mais a desaceleração econômica observada desde 2019. Em função dos bloqueios impostos e das perspectivas negativas, o choque econômico foi extremamente severo, impactando a demanda e oferta de diversos segmentos.

Nesse contexto, a produção industrial global se recuperou após uma queda significativa de 11,2% no segundo trimestre de 2020, crescendo 2,4% em comparação ao ano interior. Tal retração é a primeira dessa magnitude desde a crise financeira de 2008/2009 em que foram registradas reduções substanciais na produção industrial por quatro trimestres consecutivos. Na ocasião também foram computados aumentos excepcionalmente elevados nos trimestres subsequentes. Resta saber se a crise atual seguirá um caminho semelhante de recuperação.

Os números mais recentes ainda refletem o choque global causado pela pandemia, bem como uma recuperação lenta e incipiente. As tendências em 2020 foram dominadas pela Covid-19, sendo que os desafios e as incertezas anteriores, como a ascensão do protecionismo comercial ou o Brexit, ficaram em segundo plano. A pandemia em andamento continuará a pressionar os governos em todo o mundo a apoiar ativamente suas economias e atividades comerciais.

Analistas tem enfatizado a possibilidade de cenários divergentes de curto prazo que podem depender fortemente do desenvolvimento de novas mutações de vírus e da distribuição global de vacinas. Os próximos meses também determinarão se uma redistribuição permanente da produção industrial global terá espaço após o fim da pandemia, já que diversos países estão procurando reduzir significativamente sua dependência externa de bens essenciais ou estruturais.


A recuperação desigual


No quarto trimestre de 2020, a maioria das economias mostrou sinais de recuperação, mas com intensidade desigual. A pandemia teve forte impacto na China, o maior fabricante mundial, mas o setor se recuperou rapidamente. De acordo com informações da Unido, a produção industrial chinesa aumentou 9,4% no quarto trimestre de 2020, registrando o maior crescimento dentre todos os países pesquisados pela instituição. No caso chinês, entretanto, permanece incerto se a manufatura orientada à exportação conseguirá manter tais taxas de crescimento caso a demanda global por bens permaneça subjugada.



Na direção oposta à chinesa, as economias industrializadas foram afetadas negativamente, registrando perdas de produção na ordem de 1,6% no quarto trimestre de 2020. Além de refletirem a quebra de algumas cadeias de distribuição, tal desempenho foi intensificado pelas negociações do Brexit e incertezas tarifárias no comércio de commodities entre os Estados Unidos, China e União Europeia.

Outro grupo de países que foi severamente impactado pela crise do novo coronavírus foi o das economias em desenvolvimento e emergentes (com exceção da China). Como pode ser observado no gráfico a seguir, tal grupo registrou aumento de 1,0% no último trimestre de 2020, após quedas de 23,1% e 4,1% no segundo e terceiro trimestres, respectivamente. Ainda não está claro com que gravidade e por quanto tempo os países em desenvolvimento e emergente serão afetados pelas consequências da pandemia, considerando que o hotspot global da pandemia mudou para tais localidades durante os últimos meses de 2020. No entanto, campanhas de vacinação em massa começaram em muitos desses países e há esperança renovada de um fim (não tão) iminente para as medidas de bloqueio.


A recuperação mais tecnológica


Além da velocidade e natureza desigual, a recuperação da produção industrial também está sendo marcada por um outro tipo de “arrancada”. Como pode ser notado nos gráficos abaixo, setores industriais intensivos em tecnologia (como a produção de computadores, eletrônicos, ópticos, elétricos e produtos farmacêuticos) vem crescendo mais rapidamente em todo mundo, principalmente nas economias em desenvolvimento e emergentes (incluindo a China). Na contramão, segmentos de baixa intensidade tecnológica (como a produção de couro e vestuário) vem apresentando perda considerável de produção, chegando a -17,8% e -20,0% nas economias industrializadas.

Essa disparidade em termos de intensidade tecnológica é possivelmente resultado de dois fenômenos paralelos evidenciados pela pandemia. O primeiro diz respeito à mudança do comportamento do consumidor registrado por diversos estudos. Com a proliferação do vírus e o aumento das medidas de contenção, modalidades home office e expectativas negativas em relação a emprego, renda e recessão, consumidores se tornaram mais cautelosos e estratégicos, passando a priorizar: (i) gastos essenciais (como alimentação); (ii) itens para a vida em confinamento (como computadores e eletrônicos); (iii) produtos para o cuidado com a saúde (como produtos farmacêuticos). Tal deslocamento do consumo pode esclarecer por que alguns setores tiveram aumento de produção enquanto outros exibiram queda substancial.

Outro fenômeno que ajuda a explicar a disparidade na recuperação refere-se às consequências das medidas de contenção que obrigaram o fechamento de fábricas, prejudicando setores menos tecnológicos ou mais intensivos em mão de obra (como couro e vestuário). Como tais atividades ainda não conseguiram criar sistemas de produção com distanciamento social adequado ou automatizar as linhas fabris, a produção teve forte redução. Resta saber qual o impacto social de tais mudanças, já que um número significativo de trabalhadores depende economicamente desses segmentos industriais.


CRESCIMENTO DA PRODUÇÃO INDUSTRIAL MUNDIAL SEGUNDO GRUPOS DE PAÍSES SELECIONADOS, SETORES E INTENSIDADE TECNOLÓGICA – 4º TRIMESTRE DE 2020


Michelli Stumm – Economista. Mestre em Sociologia e Doutora em Ciência Política pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Atualmente trabalha com pesquisas e estudos sobre política e desenvolvimento industrial


REFERÊNCIAS

UNIDO – UNITED NATIONS INDUSTRIAL DEVELOPMENT ORGANIZATION. Indstat. 2021. Disponível em: https://stat.unido.org/. Acesso em: 22 out 2021.

_________. World Manufacturing Production in December 2020 (Report). Disponível em: https://stat.unido.org/. Acesso em: 22 out 2021.

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