|OPINIÃO| O esforço coletivo necessário para produzir uma tragédia sanitária como a brasileira

Mesmo sob os efeitos catastróficos da maior pandemia produzida por um vírus nos últimos cem anos, é preciso amplo esforço coletivo para chegar a imensa tragédia que fomos capazes de produzir no Brasil. Tragédia, aliás, que está muito longe de ser uma obra acabada: as coisas ainda vão piorar muito antes de melhorar.

Do começo. O conhecimento acumulado até aqui pela humanidade nos informa que pandemias virais possuem apenas dois remédios eficazes: vacina e distanciamento social. A primeira produz a famosa imunidade de rebanho, dificultando ou mesmo impedindo a circulação do vírus por falta de hospedeiros. O segundo faz a mesma coisa, mas sem imunizar as pessoas, apenas evitando o contato próximo entre elas.

Portanto, desde o dia 11 de março, quando a Organização Mundial (OMS) de Saúde reconheceu que estávamos vivendo uma pandemia, causada por um novo coronavírus (o Sars-Cov-2), sociedades e governos ao redor do mundo adquiriram (ainda que involuntariamente) duas tarefas básicas: trabalhar para desenvolver uma vacina eficaz; e esforçar-se para reduzir a velocidade de circulação do vírus, primeiro, para evitar o colapso dos sistemas de saúde e, depois, para dar tempo para que imunizantes fossem desenvolvidos.

No caso do desenvolvimento das vacinas, um esforço coletivo sem precedentes da comunidade científica mundial, somado à aceleração do acúmulo de conhecimento nas últimas décadas, fez com que não uma, mas várias vacinas eficazes fossem produzidas em tempo semelhante ao de uma gestação.

Um feito absolutamente impressionante, sem dúvida. Vacinas costumam levar anos para serem desenvolvidas. No caso da covid-19, as expectativas mais otimistas davam conta de que, mesmo com todo esforço, não teríamos uma vacina eficaz em menos de 18 meses. Com a mobilização massiva da comunidade científica, de laboratórios da indústria farmacêutica e de governos de vários países, foi possível reduzir esse prazo à metade.

Esse feito descomunal, naturalmente, não foi anunciado da noite para o dia. Desde meados de 2020, Pfizer, AstraZeneca, Moderna, Sinovac, entre outras, começaram a estabelecer parcerias com laboratórios e governos ao redor do mundo, para produção, comercialização e distribuição de seus imunizantes em processo acelerado de desenvolvimento.

Ao mesmo tempo, todos os países com recursos (ou capacidade de endividamento) e governantes minimamente sensatos à disposição passaram adquirir grandes quantidades de doses dos imunizantes ainda em desenvolvimento. Isso por três razões fundamentais. Em primeiro lugar, porque sabiam que a vacinação em massa de suas populações seria o único caminho eficaz para retirar suas economias do buraco em que se encontravam.

Em segundo, porque sabiam que, dados os efeitos devastadores produzidos pela covid-19, esperar que as vacinas em desenvolvimento tivessem sua eficácia comprovada para então comprá-las sairia muito mais caro do que as adquirir antecipadamente, mesmo correndo o risco de que algumas delas se mostrassem ineficazes mais adiante

Por fim, governantes sensatos também sabiam que não haveria doses suficientes para todos os interessados nos curto e médio prazos, uma vez que todos os países do planeta precisariam desesperadamente adquiri-las. Ou seja, governos interessados em vacinar suas populações (ou parte significativa delas) no primeiro semestre de 2021, precisariam adquirir doses mais do que suficientes para isso (contado com a possibilidade de ineficácia de uma ou outra no percurso) durante o segundo semestre de 2020.

Em outros termos esperar que os representantes dos laboratórios que desenvolveram as vacinas contra covid-19 fizessem filas para vendê-las aos governos de qualquer país não era uma opção inteligente – já que a demanda (e não haveria como ser diferente) seria imensamente maior do que a oferta.




O cenário doméstico


No Brasil, como sabemos, nem a vacina nem o distanciamento social nunca foram levados a sério. No primeiro caso, mesmo o Programa Nacional de Imunização (PNI), com postos de vacinação e profissionais treinados distribuídos pelo país, não pode fazer muito sem doses suficientes. E não há doses suficientes porque o governo federal, por meio do Ministério da Saúde, não as adquiriu quando devia tê-lo feito – no começo do segundo semestre do ano passado.

Tenta fazer isso agora, atrasado, e de maneira incompetente. Ao que parece, a especialização em logística de tropas e mantimentos para quartéis do ministro Eduardo Pazuello (sua baixa ainda não havia sido publicada no Diário Oficial da União até o fechamento do texto), que também é general da ativa do Exército Brasileiro, não foi muito útil na tarefa de comprar e distribuir vacinas, seringas, agulhas, luvas, máscaras etc. aos estados e municípios.

O colapso do sistema de saúde no Amazonas nas primeiras semanas de 2021, especialmente na capital Manaus, foi a antessala do atual caos no sistema de saúde brasileiro. Foto: Paulo Desana/Dabakuri/Amazônia Real.

Depois de muita pressão por parte dos militares, incomodados com o impacto negativo que o vexame de Pazuello à frente da Saúde está causando na imagem da corporação, e dos parlamentares, que até hoje não conseguiram extrair do ministro um cronograma confiável de vacinação, Bolsonaro concordou em trocar seu ajudante de ordens no ministério.

Convém lembrar que, em dezembro de 2020, Pazuello achava razoável que o Brasil começasse a vacinar sua população em abril de 2021: ou seja, sem a Coronavac (desenvolvida em parceria pela Sinovac e pelo Instituto Butantã) e a insistência do governador de São Paulo, João Dória, provavelmente ainda não teríamos sequer iniciado o processo de imunização.

Três quartos das cem milhões de doses finalmente adquiridas junto à Pfizer serão entregues no segundo semestre. Uma parte delas (ao menos três milhões) já poderia ter sido aplicada, caso o governo brasileiro não tivesse recusado três ofertas da farmacêutica durante o segundo semestre de 2020. Ao que parece, preocupações com a possiblidade de pessoas imunizadas serem transformadas em répteis e o fato de o Brasil ser um país tropical impediram que a negociação fosse adiante.

No que se refere ao distanciamento social, o descaso não tem sido menor: nem seu objetivo fundamental parece ter sido compreendido por boa parte dos governantes e da população brasileira. As medidas de distanciamento nunca foram recomendadas como um remédio capaz de acabar com pandemia. Em diz disso, são medidas paliativas para diminuir a circulação do vírus com vistas a evitar a sobrecarga e o colapso dos sistemas de saúde até que a população seja imunizada.

Por causa desse objetivo, as medidas de distanciamento devem ser planejadas e executadas de acordo com os dados epidemiológicos de circulação do vírus em cada localidade. Para obter dados epidemiológicos confiáveis e atualizados, por sua vez, é preciso testar constantemente o maior número possível de pessoas. Essa estratégia nunca foi utilizada no Brasil, em nenhuma esfera de governo.

O principal indicador do descaso com essa estratégia é o fato de o governo federal ter estocados seis milhões de testes, desde abril de 2020, cujo prazo de validade estipulado pelos fabricantes já venceu e cuja prorrogação de validade conferida pela Anvisa vencerá em breve. A autoridade sanitária estendeu os prazos de validade das embalagens em quatro meses.

O que fizemos foi adotar medidas aleatórias de distanciamento social, sobretudo nos primeiros meses da pandemia – medidas que foram, ao mesmo tempo, patrocinadas por governos subnacionais e sabotadas pelo governo federal. A partir de agosto de 2020, a maior parte da população brasileira e dos nossos ilustres governantes decretaram o fim da pandemia por conta própria.

Algumas medidas de distanciamento social mais rígidas, erroneamente chamadas de lockdown (nunca houve lockdown no Brasil, os que foram decretados não foram cumpridos, com a complacência das autoridades públicas), começaram a ser tomadas a partir de janeiro de 2021 não por convicção em seus efeitos, já amplamente demonstrados por outros países, mas porque começamos a empilhar cadáveres aos milhares.

Mesmo nesse cenário catastrófico, boa parte da população e dos governantes continua a tocar suas vidas como se não houvesse uma peste ceifando perto de três mil vidas diariamente. O “tocar a vida” aqui, naturalmente, não se refere apenas à necessidade de sair de casa para ganhar o pão de cada dia. Esta também é uma questão de sobrevivência. Significa que as pessoas estão saindo (normalmente) para trabalhar, passear, jantar, confraternizar, celebrar etc.

Em suma, não se constrói uma tragédia sanitária da magnitude da que estamos vivendo sem amplo esforço coletivo.

Imagem Destaque: Marcello Casal Jr./Agência Brasil


Wellington Nunes – Cientista político. Atualmente participa de um programa de pós-doutoramento na Universidade Federal do Paraná (UFPR), onde atua como professor e pesquisador. É cofundador, colunista e editor-chefe do Nuances.


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