OPINIÃO | O cinismo de parte da elite econômica brasileira

A semana, como se sabe, começou com um abalo sísmico na esfera política. O ministro Edson Fachin, relator dos casos referentes à Lava Jato no STF, decidiu (finalmente) reconhecer que a 13ª Vara Federal, sediada em Curitiba, nunca foi a jurisdição competente para julgar os processos que o ex-presidente Lula enfrenta na justiça (o mérito das acusações não foi discutido) – ele deve ser julgado pela Justiça Federal do Distrito Federal.

Fachin, aliás, parece disposto a um acerto de contas com o passado. Recentemente, declarou de forma enfática que o famoso tweet do então comandante do Exército nacional, general Villas Bôas, atentava contra a democracia brasileira; a declaração (em si, uma simples constatação) veio com um atraso de três anos, como notou o próprio general em outro tweet. Mas esse não é o mote (o termo, talvez um tanto antiquado, é influência direta da música “mote e glosa”, do atualíssimo disco de 1974 de Belchior, que ouço enquanto escrevo essas linhas) desta crônica.

O ponto aqui é a reação de parte da elite econômica nacional à principal consequência política da decisão tomada por Fachin: as condenações de Lula foram anuladas e, portanto, não há, neste momento, qualquer empecilho jurídico à sua candidatura nas eleições presidenciais do ano que vem. O repórter Julio Wiziack informa na Folha que alguns presidentes de bancos comerciais e economistas-chefe de instituições financeiras receberam essa notícia como “um balde de água”, uma vez que se preparavam para desembarcar do governo Bolsonaro. A notícia de que Lula poderia ser candidato em 2022, no entanto, teria feito a turma “dar alguns passos atrás”.

Ao que parece, a turma do papelório (como costuma dizer Elio Gaspari) estava prestes a descobrir que o figurino liberal ostentado por Jair Bolsonaro na campanha eleitoral de 2018 era jogo de cena. Não se sabe ainda se essa conclusão surpreendente viria da atuação política pregressa do presidente (três décadas como deputado) ou das constantes sabotagens a diversas iniciativas de controle de gastos, abertura econômica e privatizações tomadas por sua própria equipe econômica: a mais recente da série, mas seguramente não a última, foi a tentativa de retirar policiais e militares da chamada PEC Emergencial.

Esse processo de descoberta, no entanto, teria sido abruptamente interrompido pela possibilidade de Lula ser candidato à presidência em 2022 e, nesse contexto ameaçador, Bolsonaro voltaria a ser uma alternativa razoável, talvez a única, contra o apocalipse.

Por que isso tudo isso soa a cinismo, talvez temperado com um pouco de ignorância? São duas as razões fundamentais. Em primeiro lugar, é sabido que, embora os governos de Lula tenham promovido uma inclusão sem precedentes de pobres e miseráveis ao mercado de consumo nacional, isso não foi feito às custas da elite econômica. O ciclo econômico favorável (o famoso superciclo de commodities) permitiu essa acomodação. Em outros termos, não houve redistribuição de renda entre 2004 e 2014, mas combate à pobreza, especialmente à extrema pobreza. Nota à margem: em um país miserável como o Brasil isso não é pouca coisa.

O que vai acima implica que a inclusão social promovida pelos governos do PT não foi financiada pela elite econômica: a fatia da renda nacional apropriada pelo 1% mais rico da população brasileira no período 1970-1975 era de 24,6%; no período 2010-2015 essa taxa era de 23,2%; ou seja, concentração no topo da pirâmide da renda nacional permaneceu no mesmo patamar nos últimos 50 anos (Souza 2016).

Em segundo lugar, é preciso considerar que o outro pilar da política econômica dos governos do PT era promover o desenvolvimento alavancando grupos econômicos nacionais nos mais diversos setores. O exemplo mais célebre (mas não único) nessa seara foi política dos “campeões nacionais”: grupos empresariais que receberam generosas injeções de capital subsidiado para, em tese, se tornarem competitivos no mercado internacional – o que nunca ocorreu porque esta e outras políticas industriais do período foram mal concebidas e pessimamente implementadas (Stumm et al. 2019).

Ocorre que os mesmos grupos econômicos que se empanturraram de incentivos e subsídios distribuídos a esmo (isto é, sem nenhuma avaliação ou contrapartida) no período pós-crise de 2008, especialmente no primeiro governo de Dilma Rousseff, quando a conta chegou, em 2014, passaram (cinicamente) a atacar a política econômica do governo – da qual continuavam se beneficiando, já que alguns dos subsídios vão até 2030.

Foram esses mesmos grupos industriais (mais a turma do papelório) que se entusiasmaram com a o figurino liberal desajeitado jogado às pressas sobre Jair Bolsonaro em 2018. Alguns integrantes dessa turma ainda argumentam (cinicamente): “mas nós apostamos em Paulo Guedes”. Ora, qualquer pessoa minimamente iniciada nos assuntos da política nacional sabe que os rumos da política econômica do país são dados pelo presidente da República, e não pelo chefe da pasta da economia. Como costuma dizer o próprio Guedes, toda vez que é constrangido por Bolsonaro: “é ele quem tem os votos”.

Ademais, a própria confiança de que Paulo Guedes seria capaz de conduzir uma agenda liberal no Brasil é pura profissão de fé. Afinal, como notou Pérsio Arida em entrevista ainda durante a campanha eleitoral de 2018, “ele nunca produziu um artigo de relevo. Nunca dedicou um minuto à vida pública, não faz ideia das dificuldades.”

Em suma, o apoio de boa parte da elite econômica nacional ao atual governo mistura um tanto de ignorância com enormes quantidades de cinismo, ambos necessários para comprar tanto o liberalismo de Bolsonaro quanto a capacidade de Guedes.

P.S.: atualizando a trilha sonora:

Triste vocação

A nossa elite burra se empanturra de biscoito fino

Somos todos passageiros clandestinos dos destinos da nação

Triste destino, engolir sem mastigar

Chuva de containers

Entertainers no ar noir

No ar noir”

(Engenheiros do Hawaii, 1992)

Foto: Miguel Schincariol/AFP


Wellington Nunes – Cientista político. Atualmente participa de um programa de pós-doutoramento na Universidade Federal do Paraná (UFPR), onde atua como professor e pesquisador. É cofundador, colunista e editor-chefe do Nuances.


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