Gastos e receitas nas campanhas de 2020: a força da tradição

As causas que explicam o sucesso eleitoral de uma candidatura podem ser de naturezas diversas, envolvendo desde características sociais dos que pleiteiam os cargos até a quantidade de recursos disponíveis para financiar campanha – como já discutimos em outro texto.

No caso das eleições de 2020, esperava-se que as campanhas se concentrassem mais nas redes sociais do que na via tradicional: o corpo-a-corpo com eleitores. A pandemia, porém, não impediu que partidos e candidatos fossem às ruas. Qual dessas estratégias eleitorais terá sido mais eficaz? Apresentamos aqui uma visão panorâmica sobre o tipo de gasto e a fonte dos das receitas utilizadas para financiar as campanhas para os executivos e os legislativos municipais. É importante ressaltar que esses dados ainda são parciais, ou seja, não contemplam todos os candidatos e podem vir a sofrer alterações.




Gastos modernos e tradicionais


Campanhas políticas têm se alterado ao longo do tempo no Brasil e no mundo. No Brasil, as redes sociais, em especial o WhatsApp, têm sido ferramentas efetivas para conquistar votos. Na política profissional, os gastos e receitas de campanha precisam ser informados ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

A origem dos recursos, desde a proibição de doações empresariais, se resume a três fontes: doações de pessoas físicas (indivíduos), repasses de recursos dos partidos aos seus candidatos (recursos públicos, principalmente) e autodoações (recursos próprios dos candidatos). Os gastos podem ser classificados de diferentes formas. Aqui, consideramos a tipologia proposta por Sampaio (2020), em artigo sobre as eleições para prefeito no Brasil em 2016, que classifica os gastos em duas categorias: modernos e tradicionais.

Gastos tradicionais se referem a atividades de campanha do chamado corpo-a-corpo com os eleitores, enquanto gastos modernos se referem à contratação de pesquisas eleitorais, despesas com criação de páginas na internet, anúncios na televisão e, mais recentemente, impulsionamento de conteúdo através de redes sociais – conforme descrito na tabela 1.

Tabela 1 – Tipos de gastos de campanha

A proposta de separar os gastos de campanha em dois tipos faz mais sentido quando consideramos o tamanho dos municípios do país. Como se sabe, o Brasil é formado por municípios dos mais diversos tamanhos e essa variação pode ter efeito sobre as receitas e despesas dos candidatos. A partir das informações sobre o número total de eleitores, consideramos a seguinte classificação: municípios pequenos (até 10 mil habitantes), médios (entre 10 e 50 mil habitantes), médios grandes (entre 50 e 200 mil habitantes) e os grandes (com mais de 200 mil habitantes). Estes são municípios com a possibilidade de realização de segundo turno.

A suposição aqui foi de que, em municípios pequenos, os gastos de campanha seriam predominantemente do tipo tradicional. Em outros termos, esperava-se que partidos e candidatos investissem em adesivos, materiais impressos, gastos com militância etc. – com o intuito de subsidiar uma campanha focada no corpo-a-corpo com os eleitores.

Do lado da receita, a partir da proibição das doações empresariais e da criação do Fundo Especial de Financiamento de Campanhas (FEFC), os partidos tornaram-se atores muito mais importantes para a distribuição de recursos para financiar campanhas. Aqui a tendência esperada é que, além de a rubrica de gastos modernos crescer na medida em que aumenta o tamanho do município, a injeção de recursos partidários também avance na mesma direção. Essa hipótese se justifica dado o interesse dos partidos em eleger candidatos em grandes cidades.

Os dados confirmam as hipóteses sugeridas tanto do lado dos gastos quanto do lado das receitas. Em outros termos, os números mostram que o tamanho do munícipio exerce uma influência no tipo de campanha adotado e na quantidade de recursos recebida dos partidos. A tendência em deixar as campanhas mais “modernas” e dependentes dos partidos é nítida no gráfico 1. Os valores considerados aqui são as médias percentuais dos gastos e das receitas. Ou seja, se um candidato gastou R$ 100,00 em sua campanha e R$ 50,00 foram empenhados em gastos considerados modernos (ver tabela 1), o valor será 50%. Se, por sua vez, R$ 80,00 vieram de recursos partidários, a dependência em relação aos recursos dessa fonte será 80%.

A tendência que o gráfico nos mostra é que os candidatos a prefeito tendem a gastar mais em campanhas modernas que os vereadores, bem como dependem mais de recursos partidários. Os dois valores médios também crescem a medida em que se considera o tamanho dos municípios. Enquanto candidatos a vereador tendem a gastar, em média, 14,1% de seus recursos de campanha em despesas modernas em municípios pequenos (pesquisas eleitorais, impulsionamento de conteúdo, internet em geral), nos municípios grandes esse valor chega 23,9%. O salto dos gastos modernos é maior quando consideramos as disputas pelas prefeituras: de 22,9% em municípios pequenos, passam a mais de 50% em municípios grandes.


Faz diferença ser moderno?


Embora nos grandes municípios os gastos modernos tenham sido a regra para o cargo de prefeito, observando os resultados entre os eleitos e não eleitos, fica evidente que campanhas tradicionais ainda possuem eficiência nos pleitos do país. O gráfico dois mostra os percentuais investidos em campanhas modernas para os dois cargos em disputa nas eleições deste ano (vereador e prefeito), considerando eleitos e não eleitos. Candidatos a prefeito derrotados em eleições de municípios médios grandes e grandes, por exemplo, gastaram em média mais recursos em campanhas modernas do que os vitoriosos. Um exemplo dessa relação ocorreu na disputa pela prefeitura da cidade de São Paulo, em que Guilherme Boulos (PSOL) empenhou mais de 90% de seu orçamento de campanha em gastos modernos, enquanto Bruno Covas (PSDB), o candidato vitorioso, investiu mais em gastos tradicionais.

No que se refere ao uso de recursos partidários, não houve grande diferenças entre derrotados e vitoriosos, quando consideramos as disputas pelas prefeituras. Já para o caso dos candidatos a vereador, a dependência de recursos partidários parece ter tido o efeito contrário: candidatos vencedores tenderam a depender menos dessa fonte de recursos (ver gráfico 3).

Para concluir


O que essa análise preliminar nos mostra é que as campanhas modernas crescem à medida em que aumenta a dimensão dos municípios. Dessa forma, em cidades com segundo turno, os candidatos a prefeito tendem a gastar, em média, 50% de seu orçamento na contratação de serviços como pesquisas eleitorais e impulsionamento digital; no caso dos vereadores essa taxa cai para 23%. A dependência de recursos partidários segue a mesma tendência: quanto maior o município, maior o investimento dos partidos, dado que, por exemplo, prefeitos e vereadores eleitos em grandes centros urbanos, podem vir a ser candidatos a outros cargos no futuro – deputados estaduais ou federais, ou mesmo governadores.

No entanto, também é possível perceber que os gastos tradicionais, ou seja, o corpo-a-corpo com o eleitor, ainda ocupam espaço significativo nos orçamentos das campanhas eleitorais, mesmo em contexto de pandemia. Campanhas exclusivamente baseadas nas redes sociais podem ter feito barulho, mas ainda não tiveram força suficiente para aposentar as campanhas tradicionais.


Tiago Alexandre Leme Barbosa – Cientista Social. Mestre e doutorando em Ciência Política na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Escreve e atual como pesquisador nas áreas de partidos políticos, elite partidária e novos partidos.


Bruno Marques Schaefer – Cientista Social. Mestre e doutorando em Ciência Política na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Escreve e pesquisa sobre partidos políticos e financiamento eleitoral. Atua como membro pesquisador nos grupos “Partidos e Coligações Eleitorais na Nova Democracia Brasileira” e “Radiografia dos Novos Partidos brasileiros: Gêneses e Trajetórias”.


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