Comércio Internacional: o Brasil e o mundo

Este é o segundo texto de uma série sobre comércio internacional e analisa a inserção do Brasil na dinâmica de trocas comerciais entre países. O primeiro capítulo da série pode ser acessado aqui.


Nós não produzimos, em território nacional, tudo o que consumimos, portanto devemos comprar de outros países. As trocas internacionais são realizadas em moeda estrangeira, na grande maioria das vezes, sendo dólar a mais recorrente no caso brasileiro. Como o Brasil não emite dólares, deve adquiri-los vendendo bens e serviços, recebendo doações ou atraindo investimentos externos.

A contabilidade das moedas estrangeiras que saem versus as entrantes é feita no chamado “balanço de pagamentos”. Acontece que podem ocorrer desequilíbrios nessa conta, ou seja, mais dólares saírem do que entrarem. Nesses casos, o valor da moeda estrangeira sobe, tornando mais caros os produtos importados, e mais baratos os exportados. Em teoria, o próprio mercado corrigiria eventuais desequilíbrios, reduzindo as importações e aumentando as exportações, e devolveria “naturalmente” o balanço de pagamentos para uma situação de equilíbrio. Contudo, na prática, nem sempre é assim.

As causas para que não ocorra esse “reequilíbrio natural” podem ser estruturais, e não apenas desequilíbrios temporários do balanço de pagamentos. Esse tem sido, em certa medida, o caso brasileiro. Uma dessas causas estruturais está relacionada com a pauta comercial do país, isto é, o que o país vende e o que o país compra. Este é o assunto principal deste texto, bem como alguns temas relacionados: como a questão das reservas internacionais e do nível de abertura comercial da economia nacional.




Pauta Comercial


Os três produtos mais exportados pelo Brasil somaram, em 2019, 33% do total das exportações. São eles, respectivamente: soja, petróleo bruto e minério de ferro. No período de janeiro e novembro deste ano, o total chegou a 36,5%.

Esses produtos são classificados como “commodities”, isto é, não há diferenciação por marca (os produtores são classificados como “tomadores de preço”, ou seja, o nível de preços depende apenas do nível de oferta e de demanda), possuem baixo valor agregado (são considerados matéria-prima para outros produtos mais elaborados) e são produzidos em larguíssima escala. Essa tem sido, historicamente, uma das principais características das exportações brasileiras.

Embora 58%1 dos produtos vendidos em 2019 tivessem passado pela indústria de transformação, boa parte deles possuía baixo valor agregado. Os mais vendidos dessa categoria foram: celulose; carne bovina e de aves frescas, refrigeradas ou congeladas; farelo de soja; açúcares e melaço; ligas de ferro, aço e ouro. A soma dos produtos mencionados totaliza quase 40% da venda de produtos manufaturados.

E qual o problema disso? Primeiro, são produtos cuja competição se dá apenas na variável preço, ou seja, basta um país produzir mais barato para perdermos mercado; em outros termos, os fornecedores são facilmente substituíveis. O segundo problema é a chamada inelasticidade preço da demanda, o que significa que, embora o produto esteja mais barato, a demanda por ele não aumenta de maneira significativa. O comércio fica, assim, dependente de fatores externos – como, por exemplo, o crescimento econômico de um grande parceiro comercial.

Historicamente, o Brasil sempre dependeu da venda de produtos desse tipo (commodities): ouro, cana-de-açúcar, café, soja etc. No auge, o café respondia por, aproximadamente, 40% das exportações brasileiras. O gráfico abaixo ilustra a evolução da pauta de exportações do país desde 1997 até outubro de 2020.

Chama atenção o crescimento relativo dos “materiais em bruto não comestíveis” (commodities e combustíveis), que saem de 16% das exportações no triênio acumulado de 1997 a 1999, para 45% no período de 2017 a outubro de 2020.

Ao mesmo tempo, os produtos que mais perderam espaço foram os manufaturados (e semimanufaturados, como aço, têxteis e couro) e máquinas e equipamentos (produtos de maior valor agregado, como veículos, peças e máquinas para indústria): ambos perderam 10 pontos percentuais comparando os mesmos dois triênios.

Assim, é possível concluir que houve um aumento considerável na importância das commodities ao longo desses quase 23 anos, em detrimento dos bens manufaturados, semimanufaturados e de capital (máquinas e equipamentos).


Os Parceiros Comerciais


Os quatro maiores parceiros comerciais do Brasil somam 62% das exportações do país. Considerando os blocos econômicos, os maiores mercados para os produtos brasileiros são, respectivamente: China, Estados Unidos, União Europeia e Mercosul. A tabela abaixo mostra o quanto foi exportado para esses parceiros, bem como o quanto representam do total das exportações, e a participação da agropecuária e da indústria extrativa no total exportado para o país/bloco.

A China se destaca tanto no valor das exportações brasileiras quanto na participação de produtos mais básicos (soja, petróleo bruto e minério de ferro). Sozinha, ela compra 28% de tudo que o Brasil exporta, sendo que 81% do valor das mercadorias vendidas para lá é de produtos com baixo valor agregado. A China, portanto, é o grande cliente para nossas commodities. A concentração naqueles três produtos é alta: a soja representa 32% do que foi exportado para a China; petróleo bruto, 24%; e minério de ferro, 21%. Ou seja, esses produtos representam ¾ (77%) de tudo que o brasil vende para a China.

Os EUA também são um importante mercado para os produtos brasileiros, com uma diferença relevante comparando com a China: os EUA são um grande mercado para produtos manufaturados brasileiros. Em números, 83% do que foi exportado para aquele país passou pela indústria de transformação. Ainda que haja uma boa quantidade de produtos semimanufaturados (como aço e celulose), os EUA são um grande comprador de aeronaves brasileiras fabricadas pela Embraer – importante por se tratar de um setor de alta tecnologia.

A União Europeia aparece como terceiro maior parceiro, ficando com 15% das exportações brasileiras. Importante destacar que os produtos vendidos para lá são, em sua maioria, oriundos da indústria de transformação (principalmente semimanufaturados). O quarto maior parceiro, o Mercosul, ficou com 7% das exportações brasileiras de 2019. Contudo, apenas 10% do que foi vendido para os países-membros correspondem aos produtos mais básicos e de baixo valor agregado. Dito de outro modo, o Mercosul também é um importante mercado para a indústria brasileira.

Como (i) o Brasil depende, em boa medida, da exportação de commodities e (ii) seu maior mercado para esses produtos é a China, podemos identificar algumas variáveis que impactam o saldo do comércio brasileiro.

A primeira é a mais óbvia: dependemos dos preços das commodities. Quando estão altos entram mais dólares, e vice-versa. A segunda variável é a demanda, principalmente a da chinesa se ela compra mais, vendemos mais. Portanto, manter boas relações comerciais com a China é algo importante para o Brasil. A terceira variável é a concorrência: os EUA são um grande concorrente, principalmente no mercado da soja e do milho.

Essas variáveis são exógenas, o que significa que não podem ser controladas pelo Brasil. A forma como o governo brasileiro lida com elas, no entanto, não é irrelevante e podem ajudar a atenuar ou agravar desequilíbrios no balanço de pagamentos (maior saída do que entrada de moedas estrangeiras).


As Reservas Internacionais


Essa dependência de variáveis exógenas foi, historicamente, um dos problemas do comércio (e da economia) brasileiro. Sempre tivemos problemas em adquirir moeda estrangeira (seja a libra, seja o dólar). Mas há uma diferença importante e que tem sido, recentemente, fundamental para o setor externo da economia brasileira: as reservas internacionais.

Elas podem ser entendidas como um colchão capaz de mitigar as desvalorizações cambiais (ou alta das moedas estrangeiras em relação à moeda nacional). Trata-se, portanto, de uma “poupança” que o Brasil mantem em moeda estrangeira e que, em momentos de alta de dólar, o Banco Central pode vender uma parte, aumentando a oferta dessa moeda estrangeira e reduzindo o seu preço.

O Brasil figura entre as 10 maiores reservas internacionais do mundo, segundo o FMI. Assim, o país tem maior capacidade de lidar com eventuais desequilíbrios do balanço de pagamentos, controlar melhor o câmbio e tornar-se um investidor. O processo de aumento das reservas internacionais foi um esforço importante, realizado ao longo de anos, que ganhou força entre 2002 e 2012. O gráfico ilustra essa evolução desde 1956, segundo os dados Banco Central.

Hoje temos um colchão muito maior para suavizar os desequilíbrios externos do que jamais tivemos. Isso é uma boa notícia. O Brasil conseguiu aproveitar o chamado “boom das commodities” (alta no preço) para construir uma poupança em moeda estrangeira. Ainda que essa poupança tenha sido adquirida com aumento de dívida interna, o acúmulo dessas reservas permite ao país focar em outros problemas econômicos, que não o cambial.


A Abertura Comercial


Ao longo dos últimos 50 anos, a importância do comércio para a economia dos países aumentou consideravelmente. Uma maneira de medir isso é somando o total exportado com o importado e dividindo o resultado pelo PIB. O gráfico abaixo mostra a evolução desse número para o Brasil, América Latina e Caribe, países de renda média e alta.

É possível perceber que não só o Brasil é um país que se beneficia pouco do comercio internacional, mas também foi o que menos conseguiu aumentar a importância dessa variável em sua economia. Em 1971, a abertura comercial brasileira era de aproximadamente 15%, valor próximo dos países de renda média e da América Latina e Caribe. Em 2019, a participação do comércio internacional no PIB da região estava próxima dos 45 e 50%, no caso brasileiro não chegava a 30%.

Nos últimos 50 anos, o comércio internacional foi algo importante para o crescimento econômico da maioria dos países ao redor do mundo. Os exemplos mais célebres são os países do Leste asiático, a China sobretudo, que cresceram economicamente aumentando sua participação no comércio internacional.

Fazer isso, contudo, não é tarefa fácil. Existem algumas dificuldades estruturais para tanto, principalmente no caso brasileiro, como a reduzida produtividade, baixa capacidade de inovar, gargalos logísticos etc. – problemas já amplamente conhecidos, mas que estão longe de serem resolvidos.

Para além disso, parte do problema está relacionado com negociações comerciais. O mundo assistiu nos mesmos 50 anos a uma proliferação de blocos econômicos, cujos objetivos eram liberalizar o comércio. Mas isso é assunto para outra conversa.

1 Em setembro de 2019, o governo substituiu a antiga classificação por valor agregado (básicos, semimanufaturados e manufaturados), pela Classificação Uniforme para o Comércio Internacional. Essa nova classificação leva em conta o setor de atividade econômica, e não o valor agregado. Por conta disso, o valor dos produtos oriundos da “indústria de transformação” é maior do que a antiga classificação de “manufaturados”.


Acácio Telechi – Mestrando em Ciência Política na UFPR e pesquisador vinculado ao Núcleo de Pesquisas em Relações Internacionais (NEPRI). É graduado em Administração de Empresas na UTFPR.


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