Eleições 2020: predomínio da direita e dos políticos profissionais

Os mais de 5 mil munícios do país possuem histórias políticas específicas: ganhar a prefeitura de São Paulo não significa o mesmo que vencer em uma cidade com menos de 10 mil habitantes. Ainda assim, os resultados agregados podem indicar algumas tendências sobre a famosa pergunta “o que saiu das urnas?”.

Em uma perspectiva ampla, os resultados mostram que os partidos de direita predominaram tanto entre os candidatos quanto entre os eleitos. Além disso, análises preliminares mostram que os políticos profissionais são parte expressiva das candidaturas vitoriosas e possuem mais chances de ser eleitos, seja qual for o cargo em disputa.


O domínio da direita

Os partidos podem ser agrupados das mais variadas maneiras no espectro ideológico. Aqui, utilizamos a classificação encontrada em Krause et al (2017), com algumas modificações. Primeiro, colocamos o antigo PPS (atual Cidadania) no centro, e não na esquerda, e acrescentamos a recém criada UP na esquerda.

As legendas foram posicionadas da seguinte maneira:

  • Esquerda: PDT, PSB, PT, PV, PC do B, PMN, REDE, PSOL, UP, PCO e PSTU;
  • Centro: PSDB, MDB e CIDADANIA;
  • Direita: DEM, PL, PP, PSD, SD, PSL, PODE, PSC, PTB, REPUBLICANOS, PMB, NOVO, DC, PATRIOTA, PTC, PRTB, PROS e AVANTE;

Com base nessa classificação, os dados não deixam dúvidas sobre a superioridade numérica da direita em termos de candidaturas. Considerando os candidatos para todos os cargos em disputa, o gráfico abaixo mostra que os partidos de direita foram responsáveis por 60% dos nomes nas urnas.

No que se refere aos eleitos, o cenário à direita do espectro ideológico é o seguinte (ver gráfico 2). O PP segue sendo a maior agremiação, com 11% de eleitos. Em segundo lugar, o PSD, de Gilberto Kassab, se apresenta como uma força inegável nos municípios, ficando com praticamente 10% das vagas em disputa. Por sua vez, o processo de encolhimento do DEM parece ter sido estancado: o partido do presidente da Câmara Federal conseguiu obter 7,6% dos cargos em disputa.

No centro, o MDB reiterou a sua presença nos municípios, conquistando 12,8% das vagas disponíveis, e os tucanos fizeram 7,7%. À esquerda, o partido que mais elegeu candidatos foi o PDT (5,9%), seguido pelo PSB (5,1%) e PT (4,5%) – além de uma série de legendas com desempenho abaixo dos 2% de eleitos.

De todo modo, os resultados mostram que 11 partidos elegeram quase 80% dos cargos em disputa. Considerado apenas os partidos que conquistaram mais de 4% das vagas, o gráfico abaixo mostra quais foram os maiores vencedores. As demais vagas, foram preenchidas por partidos com desempenho eleitoral abaixo desse limiar.

Mas dizer que a direita é grande vencedora é muito pouco. Cientistas políticos argumentam há algum tempo que na competição nos municípios predominam os partidos à direita e ao centro do espectro ideológico. Uma boa olhada para as candidaturas pode fornecer mais informações para compor o cenário.


De onde vem os candidatos e eleitos?

Estudos sobre elites políticas elencam um conjunto de variáveis que explicam o sucesso eleitoral. Para além das diferenças em termos de fontes, técnicas e hipóteses teóricas sobre os rumos da classe política, a literatura já estabeleceu que há sobre-representação de homens brancos, com curso superior e de algumas profissões mais afinadas, por diferentes razões, à atividade política – como advogados, empresários, comunicadores e políticos profissionais. O objetivo aqui é verificar se esse perfil também predominou em 2020.

Primeiramente, no banco de dados disponibilizado pelo TSE constam 557.633 indivíduos para os três cargos em disputas (prefeito, vice-prefeito e vereador). Desse banco de dados, excluímos as candidaturas que foram julgadas inaptas, cassadas e os casos em que a informação do resultado do candidato era “nulo”. Isso feito, restaram 510.104 casos e, para a análise sobre os eleitos, excluímos também as candidaturas que foram para o segundo turno.

Além disso, momento da candidatura, os postulantes ao cargo fornecem algumas informações pessoais, como escolaridade, idade, raça (desde 2014) e profissão. O número de profissões declaradas foram 244. Categorizamos as mesmas em 14 tipos, valendo-nos de uma classificação já apresentada em outro trabalho (Barbosa & Schaefer, 2019), que, por sua vez, foi inspirada em (Codato et. al. 2013).

As categorias Outros e Trabalhadores foram as mais volumosas. Isso se deve ao fato de que muitos candidatos declararam a profissão “outros” (110.869 declarações) e de termos inserido nessa categoria profissões pouco recorrentes, com frequência insuficiente para integrar uma categoria isolada: modelo, astrólogo, cantor, atleta, entre outras. Já na categoria Trabalhadores entraram desde indivíduos que se declaram trabalhadores rurais até profissionais da construção civil, eletricistas e uma porção de profissões técnicas, incluindo bancários.

O gráfico abaixo mostra a distribuição de candidaturas e eleitos por categoria profissional. É interessante observar como, no computo geral, a categoria Políticos representam cerca de 5% das candidaturas, mas 20% entre os eleitos. Do lado dos Trabalhadores, a categoria possui os maiores contingentes entre os candidatos (mais de 30%) e surpreendentemente 20% entre os eleitos, disputando a liderança com os Políticos.

Mas existe uma diferença entre os cargos em análise: as disputas pelas prefeituras são menos acessíveis do que aquelas para as Câmaras de Vereadores. No executivo municipal, os eleitos são na sua maioria Políticos (28,20%) e Empresários (21,20%); já na disputa pelas Câmaras Municipais, os trabalhadores alcançam 23,20% dos eleitos.

Na prática esses resultados indicam que o perfil dos eleitos para as prefeituras tende a ser mais “elitizado” do que para as Câmaras Municipais. Em outros termos, o cargo de vereador segue sendo a principal porta de entrada para profissões de pouco prestígio social na política.


O que leva um candidato a ser eleito?

Para avançar na direção das causas que podem explicar a eleição dos candidatos, criamos algumas categorias iniciais para mensurar as chances de eles serem eleitos. Para isso, primeiramente dividimos os casos em duas categorias: eleitos e não eleitos. Em seguida, destacamos cinco variáveis que, de acordo com a literatura, poderiam aumentar as chances de eleição de um candidato: ser homem, branco, político profissional, ter nível superior completo, ser de partido de direita.

Os resultados do teste de regressão, separados entre prefeitos e vereadores, confirmam o que a ciência política vem mostrando há tempos: candidatos que são políticos profissionais tem duas vezes mais chances de serem eleitos, no caso das prefeituras, e dez vezes mais chances, no caso das Câmaras Municipais, do que aqueles que não são. Homens têm quase três vezes mais chances de alcançarem a vereança, e brancos têm vantagem semelhante nos dois cargos.

Câmaras Municipais e prefeituras, via de regra, funcionam como porta de entrada para outsiders, ou seja, para candidatos que não estão inseridos na política, ainda que o caminho seja muito mais fácil para aqueles que já fazem parte dela. Além disso, esses cargos servem como trampolim à construção de carreiras políticas e como base eleitoral dos partidos em eleições majoritárias. Dessa forma, os dados das eleições 2020 indicam que os partidos de direita saem na frente para o pleito de 2022.

Imagem Destaque: Patricia Monteiro/Bloomberg


NOTA

“TESTE DE REGRESSÃO”: optou-se por ocultar a tabela com os dados do teste, com vistas facilitar a leitura, já que os números podem gerar dúvidas em leitores não especialistas. Os principais resultados do teste de regressão estão expostos, de forma textual, no artigo.


Tiago Alexandre Leme Barbosa – Cientista Social. Mestre e doutorando em Ciência Política na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Escreve e atual como pesquisador nas áreas de partidos políticos, elite partidária e novos partidos.


Bruno Marques Schaefer – Cientista Social. Mestre e doutorando em Ciência Política na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Escreve e pesquisa sobre partidos políticos e financiamento eleitoral. Atua como membro pesquisador nos grupos “Partidos e Coligações Eleitorais na Nova Democracia Brasileira” e “Radiografia dos Novos Partidos brasileiros: Gêneses e Trajetórias”.


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