Por que o Centrão importa II: a força dos partidos do bloco nos municípios e na política nacional

Em outro texto publicado neste espaço, mostramos que o bloco de partidos conhecido como Centrão tem papel central para a governabilidade na política nacional, dado o tamanho de suas bancadas na Câmara dos Deputados. Em outras palavras, presidentes precisam conversar com as lideranças desses partidos para fazer com que sua agenda de governo avance. Jair Bolsonaro, que já passou por oito legendas que integram ou já integraram o bloco, demorou, mas parece ter abandonado definitivamente o discurso de combate à “velha política”.   

Nos últimos meses, o que se tem visto é o jogo jogado da política: cessão de cargos do Executivo para indicação de lideranças partidárias, entrega da articulação do governo no Congresso Nacional a integrantes do Centrão (tanto o líder da maioria quanto o líder do governo na Câmara são de partidos do bloco), a indicação do desembargador  Kassio Nunes para a vaga de Celso de Mello no STF etc. 

Mas, de onde vem a força do Centrão? Para além da relevância numérica na Câmara dos Deputados, a nosso ver, é preciso considerar a forte presença desses partidos nos municípios brasileiros. Para mostrar isso empiricamente, vamos utilizar dados das eleições municipais.  


Processando…
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Antes disso, porém, cabe destacar quais são os partidos que, hoje, fazem parte desse bloco. Se na Constituinte de 1987-88, quando o termo foi cunhado, o Centrão era constituído por uma parte do PMDB (atual MDB), por PFL (atual DEM), PDS (atual PP), PTB, PL, PDC (extinto) e PTR, atualmente, os partidos que oficialmente o formam são: PL, PP, PSD, Solidariedade, PTB, Pros e Avante.  

Na composição atual, o bloco foi formado oficialmente no início da 56ª Legislatura (em 2019) para garantir a seus membros vagas em comissões importantes da Câmara, como a de Orçamento e a de Constituição em Justiça. Nesse período, o arranjo partidário era integrado por DEM e MDB, que acabaram saindo em julho de 2020. Os sete partidos remanescentes possuem 155 dos 513 deputados federais (30,21%). Apesar do nome, o bloco é constituído exclusivamente por legendas de direita, conforme classificações construídas por especialistas da área de ciência política.  




O Centrão na política local 


Para começar a avançar na direção da relevância local dos partidos que integram o bloco, consideramos seus respectivos desempenhos nas eleições de 2016. O objetivo aqui é medir a capilaridade dessas legendas, ou seja, verificar em que medida elas estão presentes nos municípios brasileiros.  

Os dados referentes às performances desses partidos nas eleições de 2016 foram plotados na figura 1, onde é possível perceber que os partidos do bloco tiveram desempenhos diversos nas cinco regiões do país. No Norte, os estados com maior presença de prefeituras conquistadas foram Amazonas (AM), Roraima (RR) e Tocantins (TO); no Nordeste, Piauí (PI), Bahia (BA), Pernambuco (PE) e Rio Grande do Norte (RN); no Sudeste, o Rio de Janeiro (RJ) e no Sul, Santa Catarina (SC).  


Prefeituras conquistadas Centrão (%), 2016


Individualmente, os destaques foram: o PSD, que conquistou 518 prefeituras; o PP, com 488; o PL (então PR), com 290; e o PTB, que conquistou 248.  Também é preciso notar que a variação desses resultados acompanhou dinâmicas locais: os melhores desempenhos do PSD, por exemplo, foram no Rio Grande do Norte, onde conquistou 29% das prefeituras em disputa, e Santa Catarina (19%); os dois estados eram governados pelo PSD. O PP, por sua vez, teve desempenhos mais elevados em duas situações distintas: em estados nos quais pôde contar com o apoio do vice-governador, Bahia (12%) e Rio de Janeiro (18%); e no Rio Grande do Sul (28%), onde o partido é historicamente forte, dada a herança dos antecessores do partido (ARENA e do PDS) no estado. 



Existe relação entre as forças local e nacional desses partidos? 



Para tentar responder a essa questão, comparamos o desempenho obtido pelos partidos que integram o Centrão nas eleições municipais de 2016 com aquele observado na disputa para a Câmara dos Deputados em 2018. A figura 2 mostra uma associação positiva entre esses dois fenômenos, embora com um coeficiente de correlação fraco (р de Pearson = 0,350), o que indica que as relevâncias local e nacional do partido tendem a se reforçar mutuamente. 


Correlação entre as votações municipal (2016) e federal (2018) para os partidos do Centrão 

Fonte: os autores


Seja como for, os resultados eleitorais de 2016 mostram a força local das agremiações. Já a força nacional dessas legendas, por sua vez, pode ser facilmente comprovada olhando para a composição ideológica das duas casas do Congresso Nacional nas últimas décadas: tanto a Câmara dos Deputados quanto o Senado tem sido ocupados majoritariamente por partidos situados à direita e ao centro do espectro ideológico (ver gráficos 1 e 2). 


Fonte: Power et. al. (2019) e TSE.




Fonte: 1986-2010 (NUSP/UFPR); 2014 e 2018 (TSE) 

Em suma, a classe política do país é abastecida principalmente por partidos de centro e de direita, refletindo as preferências do eleitorado brasileiro. Dessa forma, embora execrado por parte da opinião pública, o Centrão é, em boa medida, uma agregação dessas preferências nas três esferas de governo (municipal, estadual e federal). No final das contas, o poder de barganha dos partidos do bloco deriva de suas respectivas capacidades de conquistar votos e transformá-los em cargos – o que é absolutamente legítimo.  


Bruno Marques Schaefer – Cientista Social. Mestre e doutorando em Ciência Política na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Escreve e pesquisa sobre partidos políticos e financiamento eleitoral. Atua como membro pesquisador nos grupos “Partidos e Coligações Eleitorais na Nova Democracia Brasileira” e “Radiografia dos Novos Partidos brasileiros: Gêneses e Trajetórias”.


Tiago Alexandre Leme Barbosa – Cientista Social. Mestre e doutorando em Ciência Política na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Escreve e atual como pesquisador nas áreas de partidos políticos, elite partidária e novos partidos.


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