A elite derrotada: uma análise do fracasso eleitoral dos deputados estaduais nas (re)eleições de 2018 no Paraná

Nas eleições de 2018, o fenômeno de maior destaque foi a candidatura vitoriosa de Jair Bolsonaro à presidência da República, à frente do até então inexpressivo Partido Social Liberal (PSL). O desempenho da legenda na eleição majoritária nacional repercutiu nas eleições proporcionais, tanto no âmbito federal (Câmara dos Deputados) quanto estadual (Assembleias Legislativas). Em outro texto publicado neste espaço, analisamos o chamado efeito PSL na renovação política observada na Assembleia Legislativa do Paraná (ALEP). Desta vez, vamos nos concentrar em algumas tentativas fracassadas de reeleição na ALEP – ou seja, vamos olhar para os não eleitos.  

No total, 13 incumbentes de sete partidos diferentes (DEM, MDB, PT, PRP, PSD, PSC e PSDB) não conseguiram a reeleição (12 não foram eleitos e um conseguiu apenas uma suplência) em 2018, representando 28% de fracasso nas tentativas de reeleição na ALEP, resultado muito próximo ao encontrado para os deputados federais (30%), entre 1994 e 2010, por Ranulfo Paranhos e colaboradores. Os casos a serem analisados são: Adelino Ribeiro (PRP), Ademir Bier (PSD), Alexandre Guimarães (PSD), André Bueno (PSDB), Cantora Mara Lima (PSC), Claudia Pereira (PSC), Cláudio Palozi (PSC),  Elio Rusch (DEM), Evandro Junior (PSDB), Hussein Bakri (PSD), Nereu Moura (MDB), Péricles de Mello (PT) e Wilson Quinteiro (PSDB). 


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Para tentar compreender os fatores que podem ter contribuído para o fracasso desses candidatos em suas tentativas de reeleição, consideramos tanto aspectos político-institucionais quanto socioprofissionais. No primeiro caso, destaca-se, por exemplo, a experiência política dos candidatos: apenas quatro dos treze estavam em sua primeira legislatura; excluindo estes casos, a média do número de mandatos consecutivos ficou em 3,6. Além disso, entre os treze candidatos à reeleição, sete trocaram de partido antes da disputa, mas nenhum deles foi para a legenda de maior destaque naquele pleito, o PSL. Os derrotados concentraram-se em duas coligações: Inova Paraná (PSD/PSC) e Paraná Firme (PP, PTB, DEM, PSDB e PSB): dez dos treze derrotados estavam em uma ou outra. 

 No que se refere ao perfil socioprofissional, vale ressaltar que nenhum dos candidatos derrotados tinha qualquer associação com patentes ou carreiras militares, fator bastante relevante no pleito de 2018, como vimos. No que diz respeito à idade no momento da eleição, apenas um concorrente possuía menos de 40 anos, o ex-deputado Evandro Junior (PSDB) tinha 30, sendo o mais velho o ex-deputado Ademir Bier (PSD), com 67. A média etária ficou em 53 anos. Quanto às categorias cor/raça e nível de escolaridade, quase todos se declararam brancos (10) e tinham nível superior completo (7) ou incompleto (3).  

Isso posto, vamos analisar o desempenho eleitoral dos incumbentes derrotados nas eleições para a ALEP em 2018. 



O desempenho eleitoral dos não eleitos 


Primeiramente, convém observar a variação das votações, isto é, a diferença entre os números de votos obtidos em 2014 e em 2018, em dos 13 casos que estamos considerando. 

Tabela 1

Fonte: autores, 2020 

A tabela 1 mostra que os incumbentes perderam votos de maneira expressiva (13 mil, em média) de uma eleição a outra, mesmo com alguns apresentando algum crescimento, como nos casos de Alexandre Guimarães (PSD) e Hussein Bakri (PSD). Em termos percentuais, essa perda representou, em média, 27,5%, ou seja, mais de um quarto da votação obtida em 2014.  

Por outro lado, embora a análise da votação total dos candidatos nos ofereça uma visão geral sobre a queda nas votações dos incumbentes que disputaram a reeleição e foram derrotados, ela não nos oferece maiores detalhes sobre cada um desses casos. Para conseguir avançar nessa direção, é preciso mudar o foco da análise do distrito eleitoral (o estado do Paraná) para o desempenho desses candidatos em suas respectivas bases eleitorais – ou seja, nos municípios que mais contribuíram com votos para a eleição deles em 2014 – e comparar com os resultados obtidos em 2018. 

Tabela 2

Fonte: autores, 2020 

Os dados estão na tabela 2. A coluna “município” refere-se à localidade onde os candidatos obtiveram a maior votação nominal dentre os 399 municípios do estado, constituindo-se assim em sua principal base eleitoral. As colunas “p.14” e “p.18” indicam a posição do incumbente entre os candidatos mais votados naquela municipalidade nas eleições de 2014 e 2018, respectivamente. As duas últimas colunas mostram a variação em números absolutos e percentualmente. 

Como ne nota, mesmo naqueles municípios nos quais os 13 incumbentes tiveram melhor desempenho nas eleições de 2014, a queda na performance foi expressiva em 2018 – em média, foram 8.300 votos a menos de uma eleição para outra. Percentualmente, o tombo foi de 55,6%, em média, o que significa que os candidatos perderam mais da metade dos votos obtidos em seus redutos eleitorais quatro anos antes.  

Diante de tamanho declínio, para que esses candidatos conseguissem se reeleger, eles precisariam compensar a queda expressiva de votação em seus redutos eleitorais em outros municípios. Isso, no entanto, não ocorreu.  A tabela 3 mostra a variação das votações obtidas por cada um dos candidatos em suas bases eleitorais (be) e em outros municípios (om). Como se nota, os números mostram que quase todos os incumbentes perderam votos não apenas em seus redutos eleitorais, mas também nos outros municípios do estado. Além disso, naqueles casos nos quais a variação foi positiva, isso não foi suficiente para compensar as perdas sofridas em suas respectivas bases eleitorais.  

Tabela 3

Fonte: autores, 2020 



A elite derrotada 


Os dados analisados sobre o desempenho eleitoral apontam para uma considerável erosão de capital político dos incumbentes da Assembleia Legislativa do estado Paraná em 2018: em média, houve queda 27,5% nas votações de uma eleição para outra. Essa perda também foi mais significativa nos respectivos redutos eleitorais dos candidatos, isto é, naqueles municípios que mais contribuíram para o êxito de suas campanhas nas eleições de 2014 – nessas localidades os incumbentes perderam, em média, mais da metade (55,6%) dos votos obtidos quatro anos antes.  

Essa redução expressiva, por sua vez, não foi compensada com a dispersão da votação dos candidatos (aumento dos votos obtidos em outros municípios), uma vez que, com a exceção de quatro incumbentes, todos os outros também registraram perdas consideráveis no restante do estado. E mesmo nesses casos com saldo positivo, a variação não foi suficiente para compensar as perdas e os candidatos foram derrotados.  

Olhando em retrospecto, esses candidatos somente conseguiriam se reeleger, mantendo a votação que tiveram, caso estivessem em coligações mais favoráveis, como por exemplo a coligação PSL/PTC/PATRI, cujo último candidato eleito obteve apenas 13.047 votos. Isso porque, em função da expressiva votação obtida, a coligação levou vantagem na distribuição de cadeiras pelas médias (as chamadas “sobras”)

Imagem destaque: Oscar Muller


Breno Pacheco Leandro – licenciado em Ciência Sociais pela PUCPR, mestre e doutorando em Ciência Política pelo PPGCP/UFPR, pesquisador vinculado ao LAPes/UFPR, coordenador adjunto do CIdaPOL/PUCPR-UDESC


Gabriel Marcondes de Moura – Cientista Político. Mestrando em Ciência Política pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Pesquisador vinculado ao LAPeS/UFPR, estuda organizações e estruturas partidárias comparadas.


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