|Eleições 2020| Lançar candidato a prefeito aumenta o número de votos para vereador?

O tamanho do sistema partidário brasileiro é visto por diversos analistas como um dos principais problemas do nosso sistema político, tanto quando observamos a questão da governabilidade (nos níveis federal, estadual e municipal), quanto na própria identificação, por parte do eleitor, das alternativas disponíveis no mercado eleitoral: a famosa sopa de “letrinhas” de legendas (33 agremiações, com mais de 70 em processo de formação).


Em 2017, o Congresso Nacional aprovou uma reforma política (Emenda Constitucional nº97 e Lei nº13.488), com vistas a atacar a hiper fragmentação do sistema partidário brasileiro. As principais medidas foram a instituição de cláusulas de desempenho, que tornam mais difícil o acesso dos partidos aos recursos do Fundo Partidário e o Horário eleitoral gratuito de televisão e rádio (HGPE); e a proibição de coligações proporcionais a partir das eleições municipais de 2020. A primeira medida teve efeitos após as eleições de 2018, com a fusão de partidos. A segunda, espera-se, terá efeito principalmente sobre o desempenho dos partidos pequenos – principais beneficiários das coligações proporcionais – que não conseguem, por conta própria, atingir o mínimo de votos necessário (quociente eleitoral) para conseguir eleger candidatos. A mudança na redação do artigo 109 da Lei 13.448, no entanto, deve diminuir os efeitos do fim das coligações.


Por outro lado, mudanças nas regras do jogo tendem a provocar ajustes no comportamento dos seus praticantes – o que significa que candidatos e partidos vão procurar se adaptar ao novo cenário. No caso do fim das coligações proporcionais, por exemplo, uma adaptação possível é o lançamento de candidatos a prefeito, por parte dos partidos, como forma de impulsionar a votação de seus candidatos nas eleições para vereador. Essa estratégia, já ventilada por dirigentes partidários na imprensa, se ancora no que a ciência política chama de coattail effect.

Essa expressão difícil de ser traduzida para o português pode ser entendida da seguinte forma: “o termo coattail se refere às abas traseiras de um fraque que, demasiadamente compridas, arrastam objetos ao se deslocar. A metáfora foi utilizada pela Ciência Política dos Estados Unidos para se referir […] a capacidade que tem um candidato forte de arrastar votos para outros candidatos do seu partido”(Soares 2013, p.434). Ou seja, a aposta das lideranças partidárias é que a apresentação de candidatos a prefeito (eleições majoritárias) tenha efeitos sobre o voto nas eleições para vereador (eleições proporcionais).


Processando…
Sucesso! Você está na lista.

Será que essa é uma boa estratégia?

Para tentar responder à questão, vamos usar informações das eleições de 2016 para verificar o tamanho do efeito do lançamento de candidaturas majoritárias sobre os votos proporcionais.

Em primeiro lugar, vamos observar se há diferenças na votação dos partidos que apresentaram candidatos ao cargo de prefeito. Os dados foram divididos em três grupos: partidos sem candidatos a prefeito; partidos com candidatos “estreantes”; e partidos com candidatos à reeleição. O gráfico 1 mostra que os partidos do grupo sem candidatos a prefeito tiveram desempenho inferior aos outros dois grupos, obtendo em média 5% dos votos nas eleições para a Câmara de Vereadores. Já os grupos com candidatos estreantes e com candidatos à reeleição alcançaram médias de votação bem maiores, 13% e 20%, respectivamente.

Gráfico 1: Diferença nas votações entre partidos com e sem candidatos a prefeito

Fonte: elaboração dos autores a partir de dados do TSE

Embora seja possível constatar diferenças nas votações dos partidos, as informações do gráfico 1 não dizem nada sobre as causas dessas diferenças. Para avançar nessa direção, é preciso recorrer a outras ferramentas. No nosso caso, uma ferramenta útil é o teste de regressão linear múltipla, indicado para observar diferenças nas médias de uma variável dependente (o que queremos explicar) a partir de uma ou mais variáveis independentes (o que pensamos ser a explicação).


Fizemos cinco testes de regressão linear múltipla considerando como variável dependente o percentual de votos de cada partido nas eleições para as Câmaras de Vereadores em 2016. Como variável independente, consideramos o fato de o partido ter ou não candidato a prefeito e o seu status (candidato à reeleição ou não). Além disso, usamos três variáveis para controlar os efeitos das variáveis independentes ou explicativas. As variáveis de controle foram: a votação proporcional do partido na eleição anterior (2012), o número de candidatos lançados pelo partido no município (2016) e o total de eleitores (2016). Espera-se que as duas primeiras produzam efeitos positivos sobre o número de votos do partido, já que a votação anterior indica o grau de penetração da organização e o número de candidatos tende a aumentar o potencial de votação. No que se refere ao total de eleitores, espera-se efeito negativo: maior quantidade de eleitores tende a gerar maior número de candidatos e, consequentemente, menos votos para cada um deles.


Os asteriscos ao lado dos números da tabela 1 indicam que os valores são estatisticamente significativos em todos os casos. No modelo 1, observamos o efeito de lançar um candidato a prefeito sobre o percentual de votos nas eleições para a Câmara de Vereadores sem considerar nenhuma outra variável. Neste caso, podemos observar que o valor cresce em média 9,56%. No entanto, quando incluímos nossas variáveis de controle (modelo 2), podemos notar que esse valor diminui, ou seja, quando analisamos o cenário de forma mais complexa a vantagem de lançar um candidato a prefeito é menor (1,58%). A variável com maior efeito, nesse caso, é a porcentagem de candidatos lançados: o acréscimo de um candidato tem o efeito de incrementar 0,86% o percentual de votos do partido.

Nos modelos 3 e 4, consideramos o fato de o partido lançar candidato a prefeito que busca a reeleição. No modelo 3, o valor de ter um candidato desse tipo incrementou o desempenho dos partidos em 14,16%. Porém, quando incluímos as variáveis de controle esse valor diminui (4,23%).
Por fim, o modelo 5 considera somente os partidos que lançaram candidatos a prefeito (15.693 casos) e compara o efeito da votação do partido para esse cargo com a votação para as Câmaras de Vereadores. Os resultados indicam que o incremento de 1% no número de votos para prefeito significa mais 0,15% de votos para a Câmara.

Esses resultados sugerem que a estratégia de lançar candidatos às prefeituras para alavancar as candidaturas ao cargo de vereador precisa ser considerada com cautela. Isso porque, embora os dados indiquem que partidos que lançam candidatos na eleição majoritária conseguem obter melhores resultados na eleição proporcional, há outros fatores a serem considerados.

Como vimos, quando a variável é controlada pela votação anterior do partido, pelo número de eleitores e pelo total de candidatos, seu impacto diminui drasticamente. Dessa forma, se a estratégia de dirigentes partidários em 2020 for lançar candidatos a prefeito com o objetivo de impulsionar as candidaturas do partido ao cargo de vereador, será necessário ter em conta que esses resultados são mediados por outros elementos: como o desempenho anterior da organização partidária no município e a própria competitividade do candidato lançado na eleição majoritária.

Imagem destaque: Albari Rosa


Bruno Marques Schaefer – Cientista Social. Mestre e doutorando em Ciência Política na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Escreve e pesquisa sobre partidos políticos e financiamento eleitoral. Atua como membro pesquisador nos grupos “Partidos e Coligações Eleitorais na Nova Democracia Brasileira” e “Radiografia dos Novos Partidos brasileiros: Gêneses e Trajetórias”.


Tiago Alexandre Leme Barbosa – Cientista Social. Mestre e doutorando em Ciência Política na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Escreve e atual como pesquisador nas áreas de partidos políticos, elite partidária e novos partidos.


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