|Pandemia| Algumas especificidades da covid-19 no Paraná

Desde que um novo coronavírus (Sars-Cov-2) chegou ao Brasil, esperava-se que a doença causada por ele (covid-19) assumisse características distintas ao longo do território nacional. Contribuiriam para isso o tamanho do país, a diversidade e as desigualdades regionais, as diferentes taxas de circulação de pessoas, entre muitos outros fatores. De maneira coerente com essas previsões, as diferentes regiões do país têm, de fato, experimentado situações muito diversas. Por exemplo, depois de as regiões Norte e Sudeste terem sido duramente atingidas pelo crescimento acelerado tanto do número de novos casos quanto de óbitos, agora, é a vez das regiões Centro-Oeste e Sul.

Diante desse cenário, parece útil olhar para características específicas assumidas pela pandemia nas diferentes regiões do país. Tendo isso em mente, este é o primeiro texto de uma serie em que pretendemos explorar características regionais apresentadas pela covid-19.

Iniciamos a série considerando a evolução recente da pandemia no estado do Paraná, cuja aceleração dos números de casos e óbitos levou o Ministério Público do estado (MP-PR) a solicitar à Justiça imposição de isolamento obrigatório (lockdown) nas regiões mais afetadas.

Covid-19 no Paraná: evolução dos números de casos e óbitos

Como foi dito, as curvas de transmissão (número de novos casos) e mortalidade (número de mortos) tem se comportado de formas diferentes entre as regiões do país – com o epicentro da pandemia se deslocando, durante as últimas semanas, para as regiões Centro-Oeste e Sul. O caso do Paraná ilustra bem esse cenário: depois de figurar entre os estados menos afetados pela covid-19, tem passado por uma evolução drástica nos números de novos casos e mortes.

Essa deterioração do cenário epidêmico no estado pode ser percebida claramente nas duas tendências apresentadas no gráfico 1. A primeira delas mostra que a aceleração das curvas de transmissão e mortalidade foram contidas pela rápida adoção de medidas de distanciamento social, no início da pandemia, e se aproximaram da estabilização durante o mês de abril. Já a segunda tendência mostra a aceleração das referidas curvas a partir da segunda quinzena de maio, depois que as medidas de distanciamento foram flexibilizadas.



Mas o cenário no estado, assim como no Brasil, é muito mais dramático do que apontam esses números. Isso porque como os governos não adotaram uma estratégia de testagem em massa da população, a subnotificação tanto em número de casos quanto de mortes é imensa. Uma das maneiras de se avaliar isso é olhando para números de casos e óbitos por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), como foi feito neste texto.

Ainda assim, os dados produzidos pelas secretarias municipais e estaduais de saúde podem ser úteis para mostrar mais do que as tendências de evolução dos números de infectados e de mortos por covid-19. Por exemplo, é possível investigar se há grupos mais propensos a pegarem a doença e irem a óbito. Para avançar nessa direção, estratificamos a análise a partir de duas variáveis: sexo e idade.

Casos e óbitos por sexo no Paraná

As curvas de transmissão e de mortalidade por covid-19 apresentam diferenças quando se considera o sexo das vítimas? Para responder a essa questão estratificamos as duas curvas a partir dessa variável e apresentamos os resultados nos gráficos 2 e 3.

Gráfico 2 – Casos de covid-19 por sexo no Paraná:



Gráfico 3 – Óbitos por Covid-19 por sexo no Paraná:



Como se nota, o número de casos de covid-19 tem sido sistematicamente superior entre as mulheres desde o início da pandemia. Por outro lado, o número de óbitos, também de forma sistemática, é maior entre os homens. Em outros termos, mulheres estão mais propensas a pegar covid-19, mas os homens estão mais sujeitos a sucumbir à doença.

Esses resultados são parcialmente convergentes com aqueles observados na realidade internacional. A Global Health 50/50, com base em dados sobre 20 países, mostra que, embora homens e mulheres sejam infectados com a mesma frequência, os primeiros representam cerca de dois terços dos óbitos: ou seja, a covid-19 tem matado muito mais homens do que mulheres. As razões pelas quais isso acontece estão sob intensa investigação, mas já se sabe que fatores biológicos e comportamentais influenciam esse quadro.

 No primeiro caso, os virologistas já sabem i) que o sistema imunológico das mulheres é mais resistente do que o dos homens e ii) que a diferença está na atuação dos hormônios sexuais. Assim, enquanto o estrogênio estimula uma reação mais rápida e agressiva do sistema imunológico, a testosterona inibe esse processo. Isso não ocorre apenas com a covid-19, mas também com outras doenças virais como influenza e gripes comuns. Do lado comportamental, o uso mais intenso que os homens fazem do fumo e do álcool faz com eles estejam mais suscetíveis a problemas pulmonares e cardiovasculares – o que por sua vez os tornam mais vulneráveis ao Sars-Cov-2.

Casos e óbitos por idade no Paraná

No que se refere à idade daqueles que contraem o novo coronavírus e daqueles que falecem em decorrência da covid-19, também há duas tendências bem distintas, representadas no gráfico 4.

Gráfico 4 – média de idade entre infectados e falecidos


A primeira dessas tenências (linha verde) é que a idade média das pessoas que tem diagnóstico confirmado para o novo coronavírus (Sars-Cov-2), tem caído sistematicamente: de 46, no dia 4 de maio, para 40, no dia 26 de julho. Além disso, com base nos dados referentes aos meses de março e abril (que não estão no gráfico), sabemos que essa é a tendência observada desde o início da pandemia: no dia 22 de abril, quando a métrica começou a aparecer nos informes da Secretaria Estadual de Saúde, a média de idade estava em 46,4 anos; no dia 3 de maio havia caído para 45,6.

A média de idade entre as pessoas que faleceram (linha vermelha), por sua vez, tem se mantido bastante estável desde o dia 4 de maio: 68 anos. A estabilidade se mantém mesmo quando se considera a média observada no dia 22 de março: 67,8 anos.

Além disso, esses números estão muito próximos das médias nacionais: 70 anos entre as mulheres e 67 entre os homens.

Em suma, os dados sobre o Paraná apresentados acima indicam que, embora as mulheres tenham maior probabilidade de contrair covid-19, são os homens que tem mais chances de morrer em decorrência dela. Além disso, a média de idade entre os infectados diminui sistematicamente desde o início da pandemia, enquanto entre aqueles que vão a óbito os números permanecem estáveis.

Nos próximos textos, vamos tratar da situação em outros estados brasileiros.

Imagem: Divulgação


Maiane Bittencourt

Cientista Política. Mestranda em Ciência Política na Universidade Federal do Paraná (UFPR). É pesquisadora do NUSP (Núcleo de Estudos em Sociologia Política Brasileira) e pesquisa sobre política institucional e representatividade feminina em parlamentos latino-americanos.


Welligton Nunes

Cientista político. Atualmente participa de um programa de pós-doutoramento na Universidade Federal do Paraná (UFPR), onde atua como professor e pesquisador. É cofundador, colunista e editor-chefe do Nuances.


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