Desemprego e covid-19: alguns cenários para o Brasil e o mundo

Este será o primeiro de uma série de três textos dedicados a tratar dos efeitos da pandemia de covid-19 sobre os níveis de emprego no Brasil. Para realizar esta análise, vou utilizar dados sobretudo de uma estudo recente realizado pela OIT (Organização Internacional do Trabalho) – órgão subordinado à ONU – a respeito do tema e destacar tanto alguns dos cenários traçados quanto algumas das medidas sugeridas pela organização para que os países possam mitigar o problema do desemprego, como a criação de políticas públicas específicas para cidadãos e empresas.

Um dos impactos mais profundos da covid-19 na sociedade é, sem dúvida, o efeito recessivo causado pelo vírus na economia. Para além da polêmica diária a respeito do funcionamento do comércio durante a quarentena, órgãos internacionais como o OIT e especialistas preveem que o choque causado pela pandemia no mundo do trabalho será profundo, lançando milhões de trabalhadores na miséria e no desemprego.

Neste primeiro momento, apresento ao leitor o panorama geral acerca dos cenários possíveis para as realidades internacional e doméstica.

 No dia 18 de maio, a OIT divulgou uma “nota de avaliação preliminar” intitulada “COVID-19 e o mundo do trabalho: Impactos e respostas”. São apontados três cenários. No primeiro deles, mais otimista, prevê que o impacto da covid-19 geraria 5,3 milhões de novos desempregados; no segundo, eles somariam 13 milhões; já no mais grave deles, seriam 24,7 milhões de pessoas sem emprego no mundo. Além disso, para o primeiro cenário, estima-se uma queda da “renda do trabalho” de U$ 860 bilhões. No segundo e terceiro cenários, as estimativas de queda na renda são de U$ 1,720 e U$ 3,440 trilhões, respectivamente.

Esses cenários foram preparados pela ILO (International Labour Organization) – entidade ligada à OIT – a partir de uma série de modelos econométricos abastecidos com dados sobre desemprego de vários países. A nota ainda aponta uma possibilidade de acréscimo de 10 milhões de desempregados somados aos números do pior cenário, já que a velocidade de propagação e persistência da pandemia são, em grande medida, ainda incertos.

Ao tratar mais especificamente da realidade latino-americana, a CEPAL (Comissão Econômica para América Latina e Caribe), em estudo realizado em parceria com OIT, também não traz previsões muito animadoras. O estudo prevê que os latino-americanos deverão amargar um tombo na economia de 5,3% em 2020, a pior contração para a região desde 1930. Para o Brasil, a previsão do governo é um recuo de 4,7% no PIB, pior resultado desde 1901, quando começaram as medições.

Estima-se que a região deverá ser responsável por gerar 11,5 dos 25 milhões de desempregados previstos para o mundo em 2020. Segundo a Cepal, o desemprego causado pela pandemia deverá se somar àquele já existente antes dela, totalizando 37,7 milhões de trabalhadores latino-americanos sem emprego.

No Brasil, segundo o IBGE, ao final do primeiro trimestre de 2020, a taxa de desemprego é de 11,66%, atingindo 12,3 milhões de trabalhadores brasileiros. Somente na primeira quinzena do mês de maio, houve um aumento de 76,2% na quantidade de pedidos de seguro desemprego.

O maior tombo no emprego foi no setor de serviços, responsável por 42,1% das demissões na primeira quinzena de maio, o que já evidencia os primeiros efeitos da pandemia no setor que mais emprega no país. O contingente de 504.313 desempregados criados somente no mês de maio é composto majoritariamente por homens (58%), jovens adultos (30-39 anos) e pessoas sem ensino superior (61,9%), segundo dados divulgados em 21 de maio pela Secretaria de Trabalho do Ministério da Economia.

Para os brasileiros, o horizonte que se desenha segue a linha das previsões mais negativas apontadas pela OIT. Isso porque, por aqui, a crise econômica causada pela crise sanitária somou-se a débil recuperação em curso desde a última recessão, iniciada em 2016.

Há ainda nessa equação uma persistente crise política interna que aprofunda as incertezas na economia, garantindo combustível para saltos antes inimagináveis na cotação do dólar, assim como também para a evasão de bilhões de dólares de investidores internacionais.

Em sintonia com o sentimento dos brasileiros que hoje enfrentam três crises – sanitária, econômica e política –a consultoria Gavekal Reserch, em comunicado a investidores, comparou o Brasil a um edifício em chamas. Segundo texto da consultoria assinado pelo economista Armando Castelar, “Neste momento, é melhor deixar o Brasil para especialistas, malucos, oportunistas de longo prazo e aqueles sem outras opções”.

As previsões do governo, embora menos pessimistas, também não são muito animadoras. Salim Mattar, secretário especial do Ministério da Economia, afirmou no final de abril que o desemprego deverá dobrar no Brasil como efeito da crise sanitária até o final deste ano. Dessa perspectiva, serão nos meses de julho e agosto, a depender do avanço da covid-19, que os reflexos causados pela pandemia começarão a ser sentidos com mais gravidade no mundo do emprego.

Para a OIT, há ainda mais dois componentes nesta crise: o aumento do subemprego e a ampliação da pobreza. O que, por sua vez, deverá aprofundar as desigualdades existentes, já que muitos trabalhadores dependerão de subempregos. Essa discussão fica para o próximo sábado, no segundo texto da série.

Imagem Destaque: Marcello Casal Jr/ABr

Robson Perez Jr.

Sociólogo e Publicitário. Mestrando em Ciência Política na Universidade Federal do Paraná (UFPR). É pesquisador do NUSP (Núcleo de Estudo em Sociologia Política Brasileira) e pesquisa sobre inovação tecnológica, capacidade estatal e as relações políticas entre industriais e o Estado.

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