Covid-19 e a nova ordem econômica: cenários sobre o sistema monetário global

Cenários construídos cientificamente tornaram-se uma ferramenta importante para decisores políticos enfrentarem a pandemia da Covid-19. Modelos como o da Universidade Johns Hopkins que, ao calcularem taxas surpreendentes de infecção e mortes, convenceram governos a adotar medidas rigorosas de bloqueio e reduzir drasticamente as atividades econômicas. A magnitude dessa decisão está se tornando cada vez mais aparente, pois desencadeou uma crise multidimensional que vem afetando tanto países industrializados quanto em desenvolvimento.

Buscando compreender o impacto desse tipo de conjuntura crítica nos sistemas monetário e financeiro globais, os pesquisadores Steffen Murau, Joe Rini e Armin Haas, das Universidades de Boston, Londres e Postdam, desenvolveram uma metodologia prospectiva. Suas descobertas foram publicadas recentemente no Journal of Institutional Economics e oferecem um esquema mental para o entendimento da influência da Covid-19 no futuro da globalização.

No início do artigo, os pesquisadores examinam a dinâmica subjacente ao desenvolvimento institucional do sistema monetário global, identificando dois pontos chaves para extrapolação de cenários futuros. O primeiro se refere a “quebra” da visão tradicional sobre o sistema monetário internacional em que território, área de decisão e área monetária são idênticos. Na visão dos autores, a criação mundial de dinheiro não está mais ligada a instituições públicas confinadas ao território de um Estado.

A “tríplice coincidência” desapareceu com a globalização financeira evidenciando que: (i) o dinheiro em circulação no mundo vem sendo criado por instituições privadas; (ii) o núcleo dos sistemas monetários nacionais está fora de seus territórios e distante de suas áreas de tomada de decisão. Os autores defendem, assim, que as áreas monetárias estão transcendendo o território e que o dinheiro vem sendo criado de maneira “offshore”, ou seja, fora da jurisdição monetária de um Estado. A extensão em que uma unidade de conta (como por exemplo dólar americano) é usada para criação de dinheiro no exterior depende de quanto ela é procurada no comércio internacional. Como na recente hierarquia internacional os fluxos de pagamentos estrangeiros são majoritariamente organizados por meio da moeda americana, os autores concluem que o atual sistema monetário internacional é dominado pela “criação offshore de dólares”.

O segundo ponto chave diz respeito à criação de uma rede internacional de swap1. De acordo com os autores, a gestão da crise de 2008 reavivou a cooperação internacional entre bancos centrais. O Federal Reserve (Fed), banco central dos Estados Unidos e emissor da moeda internacional mais importante do sistema global, adotou uma série de medidas de emergência sem precedentes para reduzir as tensões no sistema bancário nacional e internacional. Para estabilizar o mercado eurodólar no segmento offshore, a instituição estabeleceu linhas de swap temporárias de emergência com 14 países. Isso colocou os bancos centrais parceiros na posição de criar dólar com dinheiro público e emprestá-lo a bancos domiciliados em sua jurisdição.

O banco central americano transformou, assim, os bancos centrais dos países convidados em suas agências para ampliar o alcance do dólar e salvaguardar as estruturas financeiras globais. Após a crise, o Banco Central Europeu, o Banco da Inglaterra, o Bando do Japão, o Banco do Canadá e o Banco Suíço foram convidados a formar uma rede permanente e ilimitada de swap com o objetivo de defender o mundo contra novas crises financeiras sistêmicas. Segundo os autores, a criação da rede abriu um novo capítulo na história do sistema monetário internacional, pois os países participantes formam um fórum multilateral que, pelo menos para as principais economias avançadas do Ocidente, podem atuar como um credor internacional de última instância.

Mas quão estável e resiliente esse arranjo institucional se tornará nas próximas décadas?

Como bem lembrado pelos autores, a globalização financeira não é um estado natural ou automático das coisas, mas uma configuração institucional específica que se materializou como resultado de processos históricos e da hegemonia política, econômica e monetária dos Estados Unidos. Como construção social, o sistema monetário internacional não tem tempo de duração e está sujeito a diversos fatores, exógenos, endógenos, políticos e econômicos, que contribuem continuamente para sua transformação.

Considerando a evolução da estrutura monetária global nas últimas décadas, a equipe de pesquisadores traçou diferentes tendências para o futuro. Seguiram-se trajetórias potenciais de evolução institucional que deram origem a futuros possíveis explorando duas questões fundamentais: (i) se haverá crise financeira que coloque em risco o sistema monetário internacional; (ii) se a governança econômica global será moldada pela colaboração ou concorrência.

As análises criaram quatro cenários prospectivos: (i) continuação da hegemonia do dólar americano; (ii) coexistência de blocos monetários concorrentes; (iii) criação de uma federação monetária internacional; (iv) surgimento de uma organização monetária internacional anárquica.

No cenário (i), a hegemonia do dólar persiste, com os EUA se mantendo como estabilizador central no sistema financeiro global. De acordo com os autores, nesse futuro possível o trumpismo e sua política America first provam ser modismos passageiros. Enquanto isso, a zona do Euro permanece com estoque de reformas necessárias e a China falha em se estabelecer como um centro financeiro rival. Em contraste, o cenário (ii) prevê o surgimento de blocos monetários concorrentes, com a União Europeia e a China emergindo como dois rivais significativos da hegemonia americana. Nesse caso, os EUA não garantem mais a estabilidade global, enquanto a zona do Euro supera com êxito seus déficits e a China consegue internacionalizar sua moeda. Tais desdobramentos resultariam em maior regionalismo do comércio mundial e, principalmente, do sistema financeiro.

No cenário (iii), o Fed se mostra incapaz de suportar uma (nova) crise global e o sistema global do dólar americano implode em uma série de inadimplências e falências das principais instituições financeiras privadas. Com resultado, haveria um esforço dos países do G20 para criar um sistema monetário global alternativo no auge da crise, não direcionado por uma única moeda nacional, mas em torno de uma organização internacional. Nesse caso, a hierarquia monetária internacional mudará, com áreas de moeda nacional operando simultaneamente. Por fim, no cenário (iv), os países do G20 não conseguem estabelecer um sistema monetário alternativo, as cadeias internacionais de valor quebram e os acordos de troca se tornam incomuns no comércio internacional. Como consequência, os autores preveem uma espécie de depressão monetária global que obrigará Estados organizarem diferentes arranjos institucionais para enfrentar tais desafios.

Mas como tais cenários ajudam a atender os possíveis impactos da Covid-19 no sistema monetário internacional? As análises de Steffen Murau, Joe Rini and Armin Haas permitem chegar, pelo menos temporariamente, a quatro possibilidades:

(i) a atual crise da Covid-19 está exercendo pressão na criação offshore de dólares, mas intervenções do Fed entre os meses de março e maio estabilizaram o sistema monetário global, permitindo a manutenção provisória do cenário (i);

(ii) por outro lado, a pandemia está expondo falhas do sistema de bem-estar americano. Com patamares altos de mortes, os EUA vem também apresentando taxas expressivas de desemprego e contração no PIB. Tal configuração pode enfraquecer a posição geopolítica americana no médio prazo. A China, ao mesmo tempo, vem se saindo melhor no controle da pandemia e poderia usar isso como vantagem na guerra comercial aberta por Trump, colocando o cenário (ii) em evidência;

(iii) aparentemente a postura atual do Fed é contrária à visão “nacionalista” de Trump. Assim, importa saber se a autoridade monetária americano manterá o compromisso com a economia global no médio prazo, especialmente com a possibilidade de reeleição do presidente do país. Avaliando tal possibilidade, não parece improvável que uma cadeia de circunstâncias leve a ruptura da rede americana de swaps, abrindo espaço para o cenário (iii); (iv) a única maneira plausível do cenário (iv) atualmente se concretizar seria por meio de moedas criptográficas. No entanto, a forte dependência do dólar torna improvável que a criptografia surja como uma alternativa genuína – a menos, é claro, que o sistema atual seja destituído.

Resta aguardar quais seriam os efeitos desse “jogo de swap pandêmica” nas economias em desenvolvimento, como a brasileira.

1  Termo que significa, literalmente, “permuta” e que designa o processo de crédito recíproco ou empréstimos recíprocos entre bancos, em moedas diferentes e com taxas de câmbio idênticas. O swap costuma ser utilizado para antecipar recebimentos em divisas estrangeiras e foi criado no início dos anos 60 para aumentar a liquidez dos diversos países. O mecanismo funciona por meio dos Bancos Centrais de dois países que estabelecem montantes de crédito equivalentes na moeda do outro país, de tal forma que um governo possa sacar contra essa reserva monetária extra quando for necessário. Essa operação ocorre num determinado período de tempo, findo o qual o processo é revertido de acordo com a mesma taxa de câmbio na qual foi feita a operação original (SANDRONI, 1999, p. 585).

Imagem Destaque: Departamento de Estado dos EUA

Michelli Stumm

Economista. Mestre em Sociologia e Doutora em Ciência Política pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Atualmente trabalha com pesquisas e estudos sobre política e desenvolvimento industrial

Referências

SANDRONI, P. Novíssimo Dicionário de Economia, São Paulo: Editora Best Seller, 1999.

MURAU, S., RINI, J., & HAAS, A. The evolution of the Offshore US-Dollar System: past, present and four possible futures. Journal of Institutional Economics, v. 16, n. 3, p. 1-17, jun/2020.

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