Inovação: a frágil posição do Brasil nas disputas em torno da adoção da tecnologia 5G

Estava prometida a chegada da tecnologia 5G ao Brasil no segundo semestre de 2020, após seis anos de utilização de sua predecessora, 4G. Agora, a previsão para a chegada da nova tecnologia é 2021 ou 2022. O governo brasileiro deverá escolher qual o modelo tecnológico o país adotará para o uso do 5G. Essa decisão, que já foi adiada uma vez, estava programada para ocorrer em setembro deste ano, com a realização do maior leilão de oferta pública de capacidade para a tecnologia móvel de quinta geração no mundo.

Mas antes de analisar a adoção da tecnologia 5G e a realidade atual do Brasil, é importante falar da “internet das coisas”, a fim de compreender a relevância do problema.

Vivemos em uma época que humanos e máquinas estão cada vez mais conectados. Dados sobre diversas questões relacionadas às nossas práticas cotidianas mais triviais circulam pela rede e são utilizados por algoritmos, robôs e aplicativos com diversos fins. Essa utilização de dados dos cidadãos passa desde do uso deles pelo governo federal – para a implantação de políticas como o “Auxílio Emergencial” – até as empresas que entregam refeições – como na oferta de promoções personalizadas, cupons de desconto e todos os dados que envolvem a transação financeira.

Parte fundamental da interação cada vez maior entre máquinas e humanos está relacionada à disponibilidade e à circulação em larga escala desses dados gerados por pessoas, que serão processados e interpretados por máquinas. Lembrando que a própria máquina pode gerar novos dados a partir das informações colhidas sobre o comportamento humano, permitindo gerar estimativas mais precisas e prever ações futuras.

O emprego de tecnologias bem sucedidas de controle social para garantir a contenção da propagação da covid-19 na China é um exemplo do desenvolvimento atual da “internet das coisas”.

Outro exemplo: novas tecnologias que estão envolvidas na viabilização da condução autônoma de veículos, ou seja, sem motorista. Trata-se de uma tecnologia real, de grande potencial e um bom exemplo para entender a magnitude da inovação que o 5G representa.

Os investimentos em carros autônomos precisam garantir, ao menos, segurança similar à condução realizada por um humano. Algo que está no radar dos investimentos bilionários de gigantes da tecnologia, como o caso do Google, e de tradicionais montadoras de veículos, como alemã Audi.

Imagine o leitor a complexidade do processo: o sistema autônomo de condução precisa processar informações que acusem, por exemplo, perigo iminente ou potencial durante a condução do veículo. Além disso, um veículo autônomo ainda deve seguir o curso indicado previamente, ser capaz de desviar de obstáculos, regular velocidade conforme a necessidade, frear de forma precisa, seguir o fluxo de carros, obedecer à dinâmica dos semáforos, perceber pedestres e seguir a legislação vigente. Como se nota, são muitas as tarefas a serem cumpridas.

Isso quer dizer que a condução autônoma de veículos depende da disponibilidade e do processamento de uma imensa quantidade de dados. Isso, por sua vez, depende de uma rede que permita à máquina ter a capacidade de processar de forma estável e rápida informações que garantam, por exemplo, identificar com precisão a necessidade de frear para que, em seguida, possa ser possível realizar o ato de parar o carro de forma segura – tudo isso em um intervalo de milésimos de segundos.

Dessa forma, o desenvolvimento da “internet das coisas”, que envolve também os dilemas para a consolidação da indústria 4.0, necessita de uma rede de internet robusta e que permita um enorme fluxo de dados de forma segura e estável. A atual capacidade de processamento da tecnologia 4G é muito insuficiente para o desenvolvimento desse campo.

A quinta geração de telefonia móvel – o 5G – representa uma revolução no transporte de dados em dispositivos. Essa tecnologia entra de forma decisiva no desenvolvimento da “internet das coisas”, sendo responsável por garantir uma rede muito mais rápida e com maior capacidade de processamento de dados, quando comparada com a tecnologia disponível atualmente.

A atual tecnologia de transporte de dados (4G) permite uma velocidade de até 1 Gbit/s no download, upload e update de dados. Com a rede 5G essa capacidade será elevada para 100 Gbit/s, um valor pelo menos 100 vezes maior que a atual velocidade disponível.

Além da velocidade ampliada, há ainda a redução sensível do tempo da latência (resposta na transmissão de dados). Enquanto as redes 4G garantem uma latência entre 60-98 milissegundos, a nova tecnologia permitirá um tempo de latência de menos de 1 milissegundo. A internet deverá se tornar consideravelmente mais rápida.

Para que o leitor possa entender essa diferença de latência para a transmissão de dados pela rede, voltemos ao exemplo do carro autônomo: o tempo decorrido entre o carro perceber que necessita parar e a ação de acionar os freios, com a tecnologia 5G, será inferior a 1 milissegundo. Na atual tecnologia 4G esse tempo de latência é, pelo menos, 100 vezes maior, o que, na prática, inviabiliza a condução autônoma de veículos. Trata-se de uma nova era para as aplicações em tempo real.

Diante desse potencial tecnológico que deverá guiar parte substancial das inovações em serviços online futuros e a produção da indústria 4.0, há alguns desafios imediatos a serem enfrentados pelo Brasil para a adoção dessa tecnologia. Vamos destacar dois.

Primeiramente, é importante destacar o conflito geopolítico que envolve a instalação da infraestrutura (antenas, equipamentos, softwares) necessária para o 5G.

Atualmente, os EUA e a China são os países que lideram esse processo. O governo americano vem, nos últimos meses, realizando pressão política em países aliados para que não adotem o modelo tecnológico chinês. Os americanos acusam os chineses de promoverem espionagem internacional com o controle de dados que passam pela sua infraestrutura de rede.

A empresa chinesa que se encontra no centro dessa disputa e sob sanção do governo americano é a Huawei, que inclusive possui acordos com empresas e governos europeus para a instalação da infraestrutura da nova rede. Essa disputa envolve escaramuças diplomáticas, mandados de prisão internacional de executivos da Huawei e acusações de espionagem tecnológica.

A pressão diplomática, geralmente encabeçada pessoalmente pelo presidente Donald Trump, já chegou às terras brasileiras. No início deste ano, o governo brasileiro disse que não aceitaria “pressão americana” no leilão de 5G. Porém, mais recentemente, o governo foi acusado de favorecer o fornecedor dos EUA com o atraso do leilão.

O segundo desafio tem a ver com a histórica posição de atraso do Brasil na adoção de novas tecnologias. Essa situação é condizente com os atuais e persistentes problemas do país para a inserção competitiva na economia global e as dificuldades de acesso e desenvolvimento de tecnologias de ponta.

Essa realidade nos deixa muito longe, não apenas dos EUA e da China, mas também de vários outros países que estão mais próximos da chamada fronteira tecnológica. Isso, além de aprofundar nossa dependência tecnológica, coloca o Brasil em uma posição muito desfavorável na barganha geopolítica que envolve a disputa.

Dificuldades adicionais surgem do fato de o atual governo colecionar incidentes diplomáticos com os chineses, os maiores parceiros comerciais do Brasil e um dos detentores da infraestrutura necessária à implementação da nova tecnologia. Cenário que é agravado, sem dúvida, pelo alinhamento automático do governo brasileiro em relação aos EUA, gerando mais desconfiança nos chineses.

Nessa disputa pela implantação da infraestrutura mundial para a nova tecnologia, o papel do Brasil, portanto, não está muito claro, para além da dependência típica nas relações brasileiras com os países detentores de tecnologias de ponta.

Seja alinhado aos americanos ou ao seu principal parceiro comercial (China), o fato é que o Brasil discutirá a adoção de uma tecnologia muito importante para o futuro do desenvolvimento tecnológico mundial i) de forma bastante atrasada e ii) sob desdobramentos ainda incertos da pandemia de covid-19.

A capacidade brasileira de barganha nas disputas geopolíticas não se encontra no seu melhor momento. O governo Bolsonaro é amplamente rechaçado nas chancelarias mundo afora, especialmente no Ocidente, encontra-se a todo momento em rota de colisão com os chineses e porta-se de maneira subserviente diante dos EUA.

Tanto o imbróglio diplomático quanto o nosso atraso histórico no setor são elementos importantes para se compreender a fragilidade da posição brasileira na corrida pela adoção dessa nova tecnologia.

Robson Perez Jr.

Sociólogo e Publicitário. Mestrando em Ciência Política na Universidade Federal do Paraná (UFPR). É pesquisador do NUSP (Núcleo de Estudo em Sociologia Política Brasileira) e pesquisa sobre inovação tecnológica, capacidade estatal e as relações políticas entre industriais e o Estado.

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