OPINIÃO: Maquiavel e a conjuntura política atual

A história não é cíclica, isto é, os fenômenos não estão se repetindo ao longo do tempo. No entanto, isso não impede que façamos o exercício de buscar em referências históricas instrumentos analíticos úteis para nos auxiliar a compreender conjunturas contemporâneas. Nesse sentido, parece oportuno retornar a alguns pensamentos do filósofo italiano Nicolau Maquiavel que, para muitos, é o pai da Ciência Política. Neste texto, o esforço de analisar as dinâmicas tortuosas da política brasileira atual partirá de duas ideias específicas do autor: uma sobre os novos príncipes – especialmente daqueles príncipes que efetivam suas conquistas mais por fortuna do que por virtude – e outra sobre o papel dos “mercenários”.

As considerações de Maquiavel sobre esses assuntos podem ser úteis para analisar a recente aproximação entre o presidente Jair Bolsonaro e figuras como os deputados Arthur Lira (PP/AL), Roberto Jefferson (PTB-RJ) e Valdemar Costa Neto (PL-SP).

Para além do pragmatismo em relação às regras institucionais e da racionalidade dos cálculos eleitorais, essa tentativa de aproximação de Bolsonaro com o chamado “centrão” – composto por cerca de 200 dos 513 deputados e que envolve partidos tão díspares quanto PP, PL, Republicanos, PTB e PSD – revela muito da fragilidade política do presidente. Isso porque em menos de um ano e meio de “nova política”, o presidente se vê obrigado não a construir uma coalizão de governo, mas a tentar salvar a própria pele barganhando com expoentes do fisiologismo partidário nacional.

Dessa forma, as tentativas de aproximação com figuras como as referidas acima, que poderiam ser caracterizados como integrantes de um “centrão raiz”, simboliza um fim melancólico para uma narrativa recente: a tal nova política defendida por Bolsonaro. Essa narrativa, como se sabe, foi incorporada pelo presidente sob a promessa de ser ele próprio o líder que ligaria diretamente o Estado aos interesses do povo.

O otimismo proveniente da vitória conquistada, ao surfar a onda dessa narrativa populista, escondeu um futuro de dificuldades para o novo líder. Quando se chega ao poder de forma abrupta, “como tudo que nasce e cresce depressa na natureza”, alerta Maquiavel, não será fácil nele permanecer – a menos que se disponha virtude suficiente para preservar o que lhe foi dado pela fortuna.

Isso porque o referido feito se assenta “simplesmente na vontade e na fortuna de quem os favoreceu, duas coisas bastante volúveis e instáveis, e não sabem nem podem manter sua condição: não sabem porque, não sendo homens de grande engenho e virtude, não é razoável que, tendo vivido sempre no âmbito da privacidade, saibam comandar; e não podem porque não dispõem de forças que lhes sejam fiéis e amigas”.

Voltando ao ponto, há dois aspectos a serem considerados aqui. Primeiro: olhando por essa perspectiva, Bolsonaro segue ancorado na “vontade e na fortuna” dos seus eleitores mais aguerridos; mas, como enfatiza Maquiavel, é preciso ter em conta que esse é um suporte instável. Segundo: a falta de virtude e engenhosidade dificulta sobremaneira a tarefa de governar; o que, por sua vez, pode tolher as forças leais e amigas.

Como se sabe, o presidente jamais procurou construir boas relações com o Congresso e é nesse contexto que sua recente aproximação com o centrão precisa ser considerada.À primeira vista, ela evidencia o isolamento político de Jair Bolsonaro. Em declaração ao Correio Brasiliense, o analista político, Melilo Dinis, ressalta que o horizonte mais provável dessa relação renovada com o centrão é a traição. Algo que está, certamente, no radar do presidente, pois Bolsonaro, ao menos por 17 anos, fez parte do centrão – tendo inclusive integrado o partido de Roberto Jefferson. Ou seja, o presidente conhece os limites da lealdade de seus antigos companheiros.

Historicamente, o centrão, quando exige cargos e emendas, é pródigo em oferecer promessas para presidentes enfraquecidos, mas volúvel no que se refere à blindagem do Executivo – veja-se, por exemplo, o que ocorreu com Collor e Dilma; ou então seu apoio acaba custando caro demais ao presidente, como no caso mais recente de Temer.

Nesse sentido, os interesses desses expoentes do fisiologismo não necessariamente convergem com os de Bolsonaro. Para esses deputados, interessam os recursos que um presidente emparedado está disposto a conceder para se salvar: a gestão de orçamentos bilionários em postos chaves da administração pública, que passam, por exemplo, pela oferta da presidência do Banco do Nordeste e da Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS), vinculada à pasta da Saúde, órgão que está na linha de frente do combate ao coronavírus.

Há ainda as eleições municipais deste ano. A promessa de cargos cai como uma luva para esses deputados ávidos por recursos a serem dirigidos às suas bases eleitorais. A promessa de apoio político, portanto, está centrada na disponibilidade de cargos no segundo e terceiro escalão do governo federal.

Houve, como relatou a Folha, protestos de ministros como Paulo Guedes (Economia) e Abraham Weintraub (Educação) a respeito da indicação de membros do centrão em suas respectivas pastas. Indo de encontro a uma de suas narrativas de campanha, Bolsonaro não só ofertou os cargos aos parlamentares, como também obrigou os ministros a acatarem suas indicações, sob risco de demissão.

Para além do “toma lá dá cá”, do qual o presidente sempre foi um crítico ferrenho, há ainda o agravante de Arthur Lira, Roberto Jefferson e Valdemar Costa Neto, para ficar apenas com os nomes mais emblemáticos, serem réus nos casos do Mensalão ou da Operação Lava Jato.

Voltando aos ensinamentos do século XVI que Maquiavel nos deixou como legado, os príncipes, em virtude da busca pelo poder, podem, eventualmente, contar com “mercenários” para a empreitada. Eventualmente, porque é prudente não depender deles, já que se trata de uma aliança instável: o concerto não vai além da simples troca de favores; e mesmo para essa não há garantias.

Bolsonaro, apesar de ter sido parlamentar por quase 30 anos, entrou na presidência da República como um elemento exótico ao mainstream da política nacional. Como elemento novo nas dinâmicas palacianas, sistematicamente, plantou e colheu desafetos. Agora, sem base própria e dependendo de forças auxiliares instáveis, busca garantir ao menos os 172 votos necessários para barrar um eventual processo de impeachment na Câmara dos Deputados.

Em outros termos, sem poder contar com algo que minimamente se aproxime de uma coalizão de governo, Bolsonaro não parece ter muitas alternativas. Roberto Jefferson já deu o recado: “ou Bolsonaro se alia a esses partidos [centrão] ou ele vai cair”. A experiência indica que esse balão de oxigênio que dá sobrevida ao presidente pode não durar muito.

Imagem Destaque: Marcello Casal Jr./ABr

Robson Perez Jr.

Sociólogo e Publicitário. Mestrando em Ciência Política na Universidade Federal do Paraná (UFPR). É pesquisador do NUSP (Núcleo de Estudo em Sociologia Política Brasileira) e pesquisa sobre inovação tecnológica, capacidade estatal e as relações políticas entre industriais e o Estado.

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