OPINIÃO: Covid-19 e a economia de guerra

O mundo está em guerra contra a covid-19? O Presidente da República Popular da China, Xi Jinping, classificou os esforços de seu país contra o vírus como uma “guerra do povo”; Donald Trump se auto intitulou “presidente da guerra”, enquanto Emmanuel Macron declarou que a França “estava em guerra contra a Covid-19”. Para Olivier Blanchard, ex-economista-chefe do FMI, “o mundo está em guerra”. Concordando com tais posicionamentos, Antonio Guterres, secretário-geral da ONU, vai um pouco além ao afirmar que “precisamos lidar com o vírus com uma economia de guerra”. No Brasil, Rodrigo Maia, presidente da Câmara dos Deputados, classificou a necessidade de recursos para combater a pandemia como “orçamento de guerra”.

Analisando as afirmações destes líderes mundiais fica claro que, com a pandemia apresentando contornos apocalípticos, a retórica de mobilização nacional ganha força e a metáfora da economia em tempos de guerra fica mais evidente. Mas afinal o que é economia de guerra? Para o economista James K. Galbraith, o conceito remete à “obrigação pública de fazer o que é necessário” para apoiar o esforço militar, proteger e defender o território e, principalmente, manter o bem-estar social. Assim, governos em momentos de guerra devem descartar o conceito de “estímulo” e adotar gastos proporcionais à crise em “favor da estabilização econômica”.

Considerando tal orientação, quais as semelhanças entre as atuais medidas adotadas por governos mundo afora e as políticas normalmente implementadas durante uma guerra? Três paralelos com a “economia de guerra” parecem mais óbvios: (i) os governos estão intervindo fortemente na vida cotidiana e nas atividades econômicas de seus cidadãos para responder a uma prioridade coletiva, ou seja, para conter a disseminação do vírus; (ii) os gastos governamentais e os déficits fiscais estão aumentando, enquanto a atividade econômica privada está em queda, pelo menos temporariamente; (iii) após o término do esforço coletivo, o retorno ao padrão normal de atividade econômica apresentará desafios significativos.

Conforme veiculado diariamente pelos jornais, vários países estão administrando a emergência da saúde pública com criatividade tremenda, ao mesmo tempo em que seus bancos centrais agem para acalmar os mercados financeiros e suas forças armadas são empregadas na construção de hospitais e na contenção de pessoas. Segundo levantamento realizado pelo FMI, praticamente todos os governos estão preocupados em lançar medidas para combater a proliferação da covid-19 e para amenizar seus impactos sociais e econômicos. Boa parte vem adotando estratégias arrojadas de gastos governamentais, chegando a 35% do PIB como no caso da Alemanha, para transferir dinheiro público a trabalhadores e empresas atingidos pelas medidas de isolamento social. Outros, como dos Estados Unidos e Reino Unido, vem empregando medidas de reconversão industrial, passando a incentivar indústrias na fabricação de produtos essenciais ou estratégicos para o combate a pandemia. Tais medidas se assemelham genericamente com práticas adotadas por muitas economias durante períodos de conflitos bélicos no século XX – talvez por isso a analogia com economia de guerra.

Mas se economia e política têm correlação, é possível afirmar que estamos vivendo uma “política de guerra”? Algumas evidências apontam que sim, pois a velocidade com que legisladores mundo afora vem adotando “outras ideias” como transferências diretas de dinheiro, congelamentos de execuções hipotecárias e nacionalização de empresas em dificuldades mostram que a crise da Covid-19 está permitindo a discussão e a implementação de medidas políticas consideradas muito radicais até poucos dias atrás. Crises sempre se apresentam como momentos conjunturais críticos que concedem espaço para novas ideias, antes bloqueadas por impasses legislativos ou interesses arraigados. De acordo com o historiador Nicholas Mulder, a economia de guerra parece não suspender a política, mas expandir o jogo por ser um sistema profundamente político e altamente dependente da ação estatal. Assim, percebe-se que a “nova economia de guerra” vem trazendo à tona uma espécie de turnover ideacional e institucional, evidenciando a corrosão do construto liberal e a emergência de ideias mais intervencionistas. Tal cenário esteve presente na história de diversos países, principalmente no pós-guerra.

Elaboração da autora com dados publicados no Valor Econômico.

E as consequências? Estar numa economia de guerra significa que, quando a pandemia diminuir, o retorno à “normalidade” será prejudicado por problemas iguais aos que assolam os países após uma guerra? Para Holger Schmieding, ex-conselheiro econômico do FMI, essa situação não se verificará, principalmente por três motivos. Primeiro porque os países devastados por grandes guerras no passado tiveram partes da força de trabalho, do capital físico e da infraestrutura destruídos. Contrariamente aos países atingidos pela II Guerra Mundial, por exemplo, atualmente fábricas podem ser “ligadas” novamente assim que as restrições de atividade cessarem e as cadeias de suprimentos forem reativadas.

A segunda razão apontada refere-se ao processo de ondas inflacionárias, típicos de economias de pós-guerra que concentraram esforços no controle de preços e na “criação de dinheiro-bélico”. Para o economista, a situação atual será diferente, pois enquanto bancos centrais expandirem massivamente seus balanços, é improvável que injeções de liquidez no sistema financeiro causem aumento significativo de inflação nos próximos anos.

O terceiro motivo apontado por Holger Schmieding diz respeito à baixíssima diversidade de produtos e serviços que economias de guerra normalmente apresentam. Como bem lembrado pelo autor, durante conflitos prolongados, as indústrias nacionais normalmente são concentradas na produção de alguns bens, como armas e alimentos, e no fornecimento de apoio logístico às forças armadas. Com o fim da guerra, a desmobilização das forças armadas, o reequipamento da produção e a construção de infraestrutura básica são parte da mudança estrutural observada historicamente em países que recuperaram suas economias. Quando a pandemia de hoje for reduzida, os governos encontrarão alguns desses problemas, mas em escala muito menor do que na transição de uma “economia de guerra” para uma “economia civil” do pós-guerra.

Analisando a estrutura argumentativa do economista alemão, parece que o autor considerou apenas as economias desenvolvidas para traçar tal panorama. Assim, embora a analogia com a guerra dê pistas sobre o que pode acontecer, o exercício oferece insights limitados sobre as perspectivas político-econômicas em países subdesenvolvidos. No entanto, apesar do cenário nublado, duas tendências globais podem ser esperadas:

(i) Após uma guerra, os governos tendem a desempenhar um papel maior na economia, principalmente direcionando esforços à expansão de programas de bem-estar social. Provavelmente esse será o caso após a covid-19, com governos mundo afora estendendo gastos com saúde e concentrando esforços na contenção de novas pandemias. A conjuntura atual não coloca o Brasil nesse cenário e a tendência é que isso não ocorra por aqui.

(ii) Circunstâncias extraordinárias provocam resultados extraordinários. Crises e, principalmente, guerras sempre foram motores da inovação. Nesse sentido, espera-se que o choque causado pela covid-19 estimule a pesquisa e inovação em diversos campos do conhecimento, passando pelo uso eficiente das tecnologias de comunicação e informação até o aumento da impressão 3D e o uso robótica avançada. O único ponto de dúvida é se o Brasil irá se beneficiar e atuar nesse processo. Tudo indica que não.

Michelli Stumm

Economista. Mestre em Sociologia e Doutora em Ciência Política pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Atualmente trabalha com pesquisas e estudos sobre política e desenvolvimento industrial.

Referências

GALBRAITH, J. K. The meaning of a war economy. Challenge, v. 44, n. 6, p. 5-12. Disponível em: https://www.jstor.org/stable/40722105?seq=1. Acesso em 21 de março de 2020.

MULDER, N. The coronavirus war economy will change the world. Foreign Policy. 26 de março de 2020. Disponível em: https://bit.ly/2yvGOVO. Acesso em 21 de março de 2020.

PASSARELLI, H.; ROSAS, R. Socorro atinge 7,8% do PIB, mas gera incertezas. Valor Econômico. 13 de abril de 2020. Disponível em: https://glo.bo/2KpOTy8. Acesso em 21 de março de 2020.

ROUBICEK, M. Por que a pandemia evoca uma economia de guerra. Nexo Jornal. 31 de março de 2020. Disponível em: https://bit.ly/2wW5QNl. Acesso em 21 de março de 2020.

SCHMIEDING, H. Covid-19: reflections on the “war” analogy. The Globalist. 3 de abril de 2020. Disponível em: https://bit.ly/2XYNGWn. Acesso em 21 de março de 2020.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s