OPINIÃO: A covid-19 e a nova onda de solidariedade nacional

A situação de emergência global provocada pela pandemia de covid-19, doença causada por um novo coronavírus identificado como Sars-Cov-2, parece ter desencadeado, por aqui, uma onda de solidariedade sem precedentes. Um bom termômetro disso é oferecido pelo Monitor das Doações da Covid-19, atualizado em tempo real e disponível na rede Até o dia 17 de abril de 2020, a ferramenta indicava pouco menos R$ 2,6 bilhões de reais em doações – um número bastante expressivo, sem dúvida nenhuma.

Mas por que considerar isso como uma onda de solidariedade, algo passageiro, e não como um fenômeno regular, que faça parte do nosso cotidiano? Bem, porque é esse o espaço que esse tipo de iniciativa tem ocupado entre nós: o de um evento extraordinário, pelo menos para parte significativa da população. Tanto que não é difícil puxar algumas dessas ondas de mobilização pela memória: as tragédias de Mariana (2015) e Brumadinho (2019) e o incêndio do Museu Nacional (2018) talvez sejam as mais marcantes em tempos recentes.

Dito de maneira direta: as atividades voluntárias e filantrópicas regulares entre nós estão concentradas em um conjunto restrito de atores, empresas e fundações – ou seja, fazem parte das exceções, e não da regra. E de tempos em tempos, ao sabor das tragédias que nos atingem, surgem ondas de solidariedade (muito bem-vindas, diga-se) que desaparecem junto com as situações emergenciais que as motivaram.

Antes de defender esse argumento, uma ressalva importante precisa ser feita: estou me referindo às camadas ricas e remediadas da população (classes A, B e C, de acordo com a terminologia do IBGE), para quais a solidariedade é uma questão de escolha; e não aos pobres, miseráveis e indigentes, cuja sobrevivência depende da solidariedade mútua, como sabe qualquer pessoa que já tenha colocado os pés em uma comunidade habitada por esses grupos.

Isso posto, vou me referir aqui a três conjuntos de evidências que mostram a pertinência do argumento que vai acima.

O primeiro deles é oferecido pelo próprio Monitor das Doações já referido. A ferramenta traz um quadro que consolida as doações a partir de sua origem: a constatação mais evidente que emerge dele é que a maioria esmagadora dessas doações vem de algumas (poucas) empresas e fundações empresariais. A segunda constatação surge ao passar os olhos pela lista que identifica essas pessoas jurídicas: tratam-se de empresários, empresas e fundações que, regularmente, praticam filantropia.

Em números: mais de 90% das doações registradas pela ferramenta vem de um número relativamente pequeno de atores que tem as atividades filantrópicas incorporadas às suas rotinas. O grupo é tão restrito e recorrente que alguns dos nomes são bastante conhecidos: Grupo de Institutos Fundações e Empresas (Gife); Fundação Tide Setubal (Itaú Unibanco); Bradesco; Banco do Brasil; Ermírio de Moraes (grupo Votorantim); Instituto para o Desenvolvimento Social Privado (IDIS); Jorge Paulo Lemann (Fundação Lemann); Gerdau; Ambev; Suzano; Klabin.

Por sua vez, o montante que tem origem em doações de famílias e indivíduos representam apenas 2% do total. Outros 6% vem de campanhas de arrecadação específicas, como as que tem sido lideradas por artistas famosos e outras celebridades. Tratam-se, portanto, de inciativas transitórias, que surgiram no contexto emergencial desencadeado pela pandemia.

O segundo conjunto de indicadores que sugere a escassez dos esforços filantrópicos na sociedade brasileira é fornecido pela CAF América. Com dados envolvendo 500 organizações em 90 países, a pesquisa mostra o peso da filantropia como proporção do Produto Interno Bruto (PIB) de cada um deles (uma medida que permite comparação, portanto).

Resultado: o impacto desse tipo de atividade na economia brasileira (0,2%) representa um décimo daquele observado na economia americana (2%) e cerca de um sétimo do observado no Reino Unido (1,5%).

Um terceiro conjunto de evidências é oferecido pelo World Giving Index (WGI), que é conhecido como ranking mundial da solidariedade. No relatório publicado em 2018 (íntegra aqui), o Brasil havia caído da 75ª colocação para a 122ª, em uma amostra com 146 países. O resultado é um tanto vergonhoso, mas alguém poderia argumentar que foi apenas um ano ruim – afinal, o país tentava se arrastar para fora de uma das piores crises econômicas de sua história.

Pois bem, no relatório publicado em 2019 (íntegra aqui), comemorando uma década de existência, o WGI trouxe os dados agregados das dez edições da pesquisa (2009-2018), para uma amostra de 143 países. O Brasil ficou na 74ª posição, com 28% dos entrevistados afirmando terem realizado alguma atividade filantrópica (ajudar um desconhecido, doar dinheiro ou fazer trabalho voluntário) no mês anterior à pesquisa.

Estamos muito longe, é claro, da média dos países situados no topo do ranking – como Estados Unidos (58%), Nova Zelândia (57%) e Austrália (56%) – mas também de países africanos – como Libéria (44%), Serra Leoa (42%) e Nigéria (42%) – além de estarmos um tanto atrás de alguns vizinhos sul-americanos – como Colômbia (35%), Paraguai (32%) e Bolívia (31%).

Para aqueles que ainda não se convenceram de que a situação econômica não é um fator relevante aqui – já que estamos atrás de países como Quênia (47%), Haiti (40%) e Zâmbia (39%), além dos já citados – podemos considerar apenas a questão relativa ao trabalho voluntário, que independe da disponibilidade de recursos financeiros. Ou seja: aqueles ou aquelas que responderam afirmativamente à questão de haver dedicado parte do seu tempo em alguma atividade voluntária no mês anterior a pesquisa.

Neste quesito a posição brasileira piora consideravelmente: caímos da 74ª posição para a 84ª, com apenas 15% dos entrevistados respondendo positivamente à questão. E, de quebra, ficamos novamente atrás de todos os países já citados.

Em suma, essas informações sugerem que a pandemia de covid-19 desencadeou mais um surto circunstancial de mobilização solidária nas camadas remediadas e mais abastadas da sociedade brasileira. O que está longe de ser uma notícia ruim, diga-se: ainda que o referido surto sirva apenas para amenizar os efeitos negativos da emergência sanitária e econômica que estamos atravessando, já terá sido de muita valia.

A esta altura alguém poderia perguntar: não é possível que a gravidade da situação e a mobilização dela decorrente tornem a solidariedade uma regra na sociedade brasileira? Sim, é possível; mas, considerando nossa trajetória pregressa, é pouco provável.

Wellington Nunes

Cientista político. Atualmente participa de um programa de pós-doutoramento na Universidade Federal do Paraná (UFPR), onde atua como professor e pesquisador.

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