Inovação: a pandemia expõe de forma mortal a insuficiência e dependência tecnológica do Brasil

A pandemia do novo coronavírus expôs, para além das deficiências amplamente conhecidas pelos brasileiros a respeito do SUS (Sistema Único de Saúde), a fragilidade do Brasil para ter acesso a insumos para a área da saúde. Ficou evidente a dependência do país para ter acesso a produtos, como testes para detectar o novo coronavírus, além de tecnologias básicas para o combate à covid-19.

Para equipamentos, como ventiladores pulmonares, medicamentos, produtos químicos e até seringas e máscaras, os brasileiros vem acompanhando na mídia as dificuldades do governo em garantir esses insumos à população.

A dependência externa brasileira para ter acesso a esses produtos ficou escancarada com a pandemia e ganhou, junto a outros países em desenvolvimento, ares dramáticos com os confiscos de produtos de saúde por países desenvolvidos, especialmente realizados pelos EUA.

Os confiscos aconteceram com produtos que estavam destinados, e em trânsito, a muitos países da América Latina e que haviam sido comprados da China, numa ação que muitos especialistas e alguns governos definiram como um ato de pirataria.

No Brasil, vivemos uma realidade de baixa inovação e pesquisa no setor de saúde, especialmente o farmacêutico, e forte dependência externa, fundamentalmente de insumos chineses.

Hoje, por exemplo, o estado de São Paulo, o mais rico da federação e epicentro da pandemia no Brasil, tem uma fila de espera de quase 30 mil testes de coronavírus para serem realizados, até a última sexta-feira (10/04).

Essa falta de instrumentos para realizar testes tende a deixar as subnotificações dos casos de covid-19 em proporções elevadas, o que dificulta sobremaneira a luta contra a pandemia e ações de políticas públicas acertadas.

Parte significativa desse problema de baixa quantidade de testagens vem, fundamentalmente, da dependência externa brasileira para ter acesso a esses equipamentos e é agravada pela escassez desses produtos no mercado mundial diante da enorme demanda.

Em aspectos gerais, essa realidade é reflexo do um problema persistente na indústria brasileira: a baixa capacidade de inovação e dependência externa de insumos para a produção de tecnologias.

Para ficarmos aqui em um exemplo setorial, a indústria farmacêutica, uma das mais dinâmicas do mundo, ocupa o topo do ranking de investimentos em pesquisa e desenvolvimento, com destaque para a União Europeia e para os EUA, segundo levantamento da Interfarma (Associação das Indústrias Farmacêuticas de Pesquisa) lançado em 2018.

Os investimentos na indústria farmacêutica e de biotecnologia estão acima de investimentos em setores tradicionais como automobilístico e até mesmo de setores de alto desenvolvimento tecnológico, como os de Hardware e Software.

Os Investimentos em pesquisa e desenvolvimento do setor farmacêutico no mundo aumentaram 25,7% em dez anos, entre 2008 e 2018. Projeção de crescimento para 2022 é de mais 12,4%. Esses dados são anteriores a pandemia desencadeada pelo novo coronavírus e, muito provavelmente, essa taxa de crescimento deverá ter maior expansão.

Isso evidencia como a agenda de inovação no setor de saúde e biotecnologia é a pedra de toque dos investimentos em P&D (Pesquisa e Desenvolvimento) e também a principal prioridade para os países mais avançados.

Nesse panorama, o levantamento realizado pela Interfarma mostra as fragilidades do sistema brasileiro de inovação e pesquisas clínicas, quando somos comparados a outros países, o que nos permite ter uma dimensão mais exata do tamanho do desafio do combate à pandemia do novo coronavírus no Brasil.

Os pedidos de patentes em pesquisas clínicas, um indicador que permite ter uma noção mais clara do nível de desenvolvimento tecnológico de um país, cresceram, entre 2014 e 2015, período para o último registro compilado, apenas 0,4%. Para efeito de comparação, a China, que lidera a produção de patentes neste setor, para o mesmo período, teve um salto de 18,7%.

Não à toa, para combater o novo coronavírus, a expertise chinesa, hoje, é requerida no mundo inteiro e não somente pela eficiente política de isolamento social que eles foram capazes de implementar, mas pela qualidade das pesquisas científicas que este país vem realizando no âmbito da saúde e da biotecnologia.

No Brasil, o tempo de análise de pedidos de pesquisa clínica é o dobro da média mundial, o que, evidentemente, tende a desencorajar pesquisadores a atuarem no país, além de criar dificuldades para a realização de investimentos mais robustos no setor.

Tempo de análise dos pedidos de pesquisa clínica. Imagem: Associação das Indústrias Farmacêuticas de Pesquisa

Já em relação aos investimentos em pesquisas clínicas, algo vital nos tempos atuais, ocupamos a 14ª posição e realizamos somente 2% dos testes clínicos no mundo, enquanto os EUA, líderes em testes e em pesquisas clínicas, realizam 41%.

Somam-se esses pontos e podemos ver uma parte do gargalo brasileiro no combate à atual pandemia. As dificuldades de inovação e realização de pesquisas clínicas no Brasil, algo que extrapola o setor de saúde e biotecnologia, é um obstáculo enorme para emergência no combate à covid-19.

Há centros de pesquisa e pesquisadores de altíssima qualidade no Brasil e, hoje, estes estão juntos a médicos e enfermeiros, na linha de frente no combate à pandemia.

Mas esse esforço será como enxugar gelo se, no curto e médio prazos, um contingente significativo de investimentos não forem direcionados às pesquisas clínicas. Esse ponto é fundamental. Vários países no mundo hoje correm para buscar soluções para criar uma vacina e medicamentos eficazes contra a covid-19.

Não podemos estar a reboque desse esforço global de pesquisa, mesmo que tenhamos tantas dificuldades para realizar pesquisas clínicas.

Convém estar nessa corrida em busca das soluções para enfrentar a pandemia. Lembrando que, quando uma solução surgir, estaremos diante de outro problema: como distribuir o conhecimento e realizar a logística de vacinação e produção de medicamentos em escala mundial, em tempo hábil?

Infelizmente, parte da resposta é nebulosa e passará pelas escaramuças das disputas políticas e geopolíticas. Se, no início da crise, vemos países ricos interceptando, sem muitos constrangimentos, insumos médicos que estavam indo a países em desenvolvimento para o combate à pandemia, fica difícil prever um futuro mais solidário.

Será uma corrida pela vida que envolverá uma disputa tecnológica em nível global. Na verdade, já envolve e o tempo é curto para o Brasil que precisa estar melhor preparado.

Imagem destaqueMaster Sgt. Toby Valadie

Robson Perez Jr.

Sociólogo e Publicitário. Mestrando em Ciência Política na Universidade Federal do Paraná (UFPR). É pesquisador do NUSP (Núcleo de Estudo em Sociologia Política Brasileira) e pesquisa sobre inovação tecnológica, capacidade estatal e as relações políticas entre industriais e o Estado.

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