OPINIÃO: Sobre os novos candidatos a heróis nacionais

Como tem mostrado (consistentemente) diversas sondagens de opinião, realizadas por diferentes institutos de pesquisas, as taxas de aprovação das atuações dos governadores e do ministro da saúde, durante a emergência sanitária e econômica desencadeada pela covid-19, tem superado em muito a do presidente da república. No caso do outrora quase desconhecido Luiz Henrique Mandetta (DEM/MS), os índices de aprovação superam três quartos da população (76%) e representam mais do que o dobro daqueles ostentados pelo presidente Jair Bolsonaro, segundo o DataFolha.

Como explicar a ascensão, por assim dizer, meteórica da popularidade desses agentes? Muito pode ser dito e escrito para responder à essa questão, mas limito-me aqui a abordar dois fatores que considero fundamentais.

O primeiro deles tem a ver com a natureza das relações de poder. Este, como se sabe, é um espaço arbitrário que não fica vazio nem aceita desaforos: quer dizer, se alguém não ocupa o espaço que lhe é de direito, digamos, por prerrogativa do cargo, outra pessoa o fará. Por essa ótica, pode-se compreender, por exemplo, por que tem sido possível a atores políticos que, em outros tempos, seriam meros coadjuvantes ou permaneceriam no anonimato pavimentarem o caminho ao primeiro plano da política nacional.

Alguns exemplos célebres disso que se está dizendo: o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, o ministro da Justiça e da Segurança Pública, Sergio Moro e, mais recentemente, diversos governadores (João Dória, Wilson Witzel, Ronaldo Caiado, Eduardo Leite, Flavio Dino, entre outros) e o titular da pasta da saúde.

O segundo fator a ser destacado aqui é que, como ensina a sabedoria popular, “em terra de cegos, quem tem um olho é rei” e, tudo indica, os atores listados acima sabem disso. Em outros termos, eles perceberam que poderiam tirar proveito da inépcia de um governo carente de experiência administrativa e que, por isso mesmo, anda por aí a ostentar indefinições e desencontros internos, e a dar trombadas e esbarrões quando se move.

Esse cenário, obviamente, foi potencializado pela situação de emergência sanitária sem precedentes que estamos vivendo. Isso porque, em situações como esta, de profunda gravidade, alguns predicados, já muito úteis no cotidiano, tornam-se imprescindíveis: sobriedade, capacidade para estabelecer prioridades, competência técnica, habilidade política, frieza para tomar decisões… A lista poderia se estender, mas você certamente já captou qual é o ponto aqui.

Quando ficou claro que a liderança necessária para enfrentar a crise desencadeada por um novo coronavírus não viria da Presidência da República (presidente e seus assessores mais próximos), esse espaço, já que não existe vácuo em relações de poder, passou a ser ocupado por outros atores políticos – alguns governadores e o (por enquanto) ministro da saúde, notadamente.

O desconforto explícito do presidente e de seu séquito de seguidores mais fiel com essa situação também não é difícil de ser compreendido: eles sabem que quem consegue ocupar tamanho espaço de poder durante uma conjuntura crítica, como a que estamos atravessando, também poderá usá-lo para viabilizar sua própria agenda depois que ela passar.

Dessa perspectiva, portanto, o balão de ensaio em torno da demissão de Mandetta pode ser compreendido pela ótica de um simples cálculo eleitoral: eliminar o ator que mais tem capitalizado o espaço político aberto pelo despreparo evidente do presidente para conduzir uma situação dessa gravidade.

Ainda na perspectiva do cálculo, Bolsonaro, mais uma vez, acerta ao recuar – e aqui não faz diferença se o recuo atendeu à estratégia ou à impotência. O fato é que se ocupando o cargo de ministro Mandetta drena o capital político do presidente, demitido neste momento (antes do pico da pandemia) ele se transformaria em herói nacional.

Pobre do país que precisa deles, dos candidatos a heróis ou a salvadores da pátria. Boa páscoa a todos!

Wellington Nunes

Cientista político. Atualmente participa de um programa de pós-doutoramento na Universidade Federal do Paraná (UFPR), onde atua como professor e pesquisador.

Imagem Destaque – Sergio Andrade

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