O empresariado nacional e a covid-19

A pesar de seu título, este texto não pretende tratar o conjunto do empresariado nacional como um bloco homogêneo, o que estaria muito longe da realidade, mas enfatizar diferenças importantes em termos de discursos e de ações do meio empresarial, no atual contexto de emergência sanitária e econômica desencadeado pela covid-19.

O “documento histórico”, para usar a expressão de Elio Gaspari, utilizado como principal referência aqui foi uma reunião do governo (presidente e alguns de seus ministros) com um conjunto bastante heterogêneo de empresários. A reunião ocorreu na sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), com a presença de integrantes do governo e do presidente da entidade, Paulo Skaf; muitos empresários participaram por videoconferência. A íntegra está na rede.

Em outro texto, argumentei que, para enfrentar a situação de emergência sanitária e econômica desencadeada pelo novo coronavírus, a ação conjunta e coordenada do poder público nos três níveis de governo (que não está garantida) não será suficiente: todos nós (indivíduos, empresários, fundações, entidades e organizações não governamentais, movimentos sociais, etc.) teremos de contribuir.

Na sequência, argumentei que, para que possamos fazer a nossa parte, será preciso superar um traço cultural cultivado ao longo de nossa trajetória histórica: a falta de iniciativa para tentar solucionar os problemas que estão a nossa volta e, consequentemente, esperar que alguém (normalmente o poder público) o faça. Atividades voluntárias e filantrópicas entre nós, por exemplo, são exceções, e não regra – diferentemente do que ocorre em muitos outros países.

Pois bem, a referida reunião ocorrida na sede da FIESP parece ser um bom indicador do que podemos esperar nesse sentido e, quem se der ao trabalho de assisti-la, verá as que as perspectivas não são boas. E isso por várias razões.

Em primeiro lugar, a reunião foi improdutiva. Apesar de ter contado com 14 integrantes do alto empresariado nacional, para além de trivialidades e bajulações, foram sugeridas apenas duas medidas concretas e muito bem-vindas, diga-se: uma por parte do representante da Ambev, Jean Jereissati, e outra do representante da Suzano, David Feffer. O primeiro colocou à disposição do governo uma fábrica do Rio de Janeiro, remodelada para produzir álcool para a rede pública; o segundo anunciou a doação de 500 mil máscaras.

As iniciativas ganham relevância quando se leva em conta que já estão faltando álcool e equipamentos de proteção individual (os EPIs) para a linha de frente do combate à covid-19: médicos, enfermeiros, agentes de saúde, etc. Mas insisto: são apenas duas medidas práticas em uma amostra de 14 dos maiores empresários do país, que se reuniram com o governo federal em um momento de profunda gravidade.

Outra iniciativa muito bem-vinda, anunciada cerca de uma semana depois, foi a ação conjunta envolvendo Gerdau, Ambev e hospital Albert Einstein, que renderá à cidade de São Paulo uma nova unidade de saúde, específica para o tratamento de pacientes com covid-19. A unidade contará com 100 leitos, 40 dos quais estarão disponíveis até meados de abril e os 60 restantes, até o fim do mesmo mês.

Voltando à videoconferência na sede da FIESP, a segunda má notícia é que parte importante dos empresários que dela participaram pareciam mais interessados em saber o que o governo teria para oferecer a eles do que em cooperar para que a crise seja superada. Há vários exemplos nesse sentido, mas vou tratar dos dois que me pareceram mais emblemáticos.

O primeiro foi protagonizado pelo representante da indústria farmacêutica, Carlos Sanchez, que, ao ouvir Eugênio de Zagottis, do ramo de farmácias, argumentando que o aumento de preços dos medicamentos previsto para a semana que se iniciaria no dia 23 de março deveria ser adiado em função da crise sanitária, deu duas sugestões: i) subsídio cambial (com o dólar para a indústria sendo fixado em R$ 4) ou redução de 5% na margem das farmácias, taxa que deveria ser repassada para a indústria farmacêutica.

É o que se chama popularmente de “dar bom dia com o chapéu alheio”. Sanchez não deu nenhuma sugestão de como a indústria farmacêutica poderia contribuir para ajudar o país a sair da situação na qual se encontra: no primeiro caso, a fatura ficaria com o Tesouro Nacional (ou seja, conosco), no segundo, com o setor de farmácias.

No segundo episódio, Edson Queiroz Neto, do setor de petróleo e gás, solicita que aviões da FAB sejam disponibilizados para buscar uma encomenda de EPIs a ser doada para a rede pública, já que essas viagens custariam muito caro. O ministro da Casa Civil, Braga Netto, respondeu que a Vale também havia feito uma encomenda à China, de equipamentos a serem doados à rede pública, e que iria buscá-la por conta própria.

Conforme a crise se arrasta e se agrava, os exemplos desse tipo de comportamento vão se multiplicando. Cito mais dois apenas.

O primeiro deles foi protagonizado por outro órgão corporativo, a Federação Brasileira de Bancos (FEBRABAN). Em nota publicada no dia 16 de março, a entidade anunciou que as cinco maiores instituições financeiras do Brasil (Banco do Brasil, Caixa, Itaú, Bradesco e Santander) estavam dispostas a negociar a prorrogação, por 60 dias, das dívidas das empresas (sobretudo as micro e pequenas), com o intuito de preservar o emprego durante a crise desencadeada pela covid-19.

Duas semanas depois, no entanto, o cenário que temos é bem diferente. O relato de todos aqueles que tentaram negociar suas dívidas com os bancos é o mesmo: aumento das taxas cobradas em todas as linhas de crédito (capital de giro, antecipação de recebíveis, empréstimos de longo prazo, etc.

Não que esse comportamento seja uma novidade, muito ao contrário: o comportamento esperado do mercado privado de crédito em momentos de crise, com base na experiência histórica pregressa, é exatamente esse – enxugamento e encarecimento do crédito. Durante a crise financeira de 2008, para ficarmos em um exemplo recente, governos e bancos centrais ao redor do mundo agiram de forma contundente (ainda que tardia) para garantir a liquidez (oferta de recursos a preços praticáveis) que o mercado privado se negava a oferecer.

Desta vez, para enfrentar os efeitos econômicos catastróficos que a emergência sanitária já está causando, os governos (através de seus bancos centrais e de bancos públicos) terão que agir novamente.

O último exemplo a ser destacado aqui vem do setor de varejo. Empresários do setor, liderados por Flávio Rocha (Riachuelo) e Luiza Trajano (Magazine Luiza), tem pressionado a equipe econômica do governo para suspender medidas de restrição ao funcionamento do comércio, sob pena de demitirem cerca de 600 mil funcionários.

Todos sabemos que as grandes varejistas do país tem condições de arcarem, por conta própria, com os salários de seus funcionários durante as semanas em que suas lojas físicas permanecerem fechadas, sem colocar em risco seus respectivos negócios.

Lamentavelmente, é preciso reconhecer que episódios como os que foram relatados acima, dão razão a argumentos antigos presentes na literatura acadêmica que trata do empresariado enquanto ator político no Brasil, que caracteriza parte dele como sendo incapaz de ir além de seus interesses particulares (ou do seu setor) e dependente de favores e benesses do Estado.

Wellington Nunes

Cientista político. Atualmente participa de um programa de pós-doutoramento na Universidade Federal do Paraná (UFPR), onde atua como professor e pesquisador.

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