OPINIÃO: “Narrativas e regimes políticos”

Outro dia, noutro espaço, lembrei que o homo sapiens, como notou o historiador israelense Yuval Harari, prefere perceber o mundo pelas lentes das narrativas2, em vez de fazê-lo pela observação sistemática da realidade; além disso, preferimos, via de regra, as narrativas mais simples àquelas mais complexas.

Num caso e noutro a lógica explicativa é a mesma: narrativas podem ser construídas muito mais rapidamente e ser bem mais persuasivas do que o estoque de informações oriundo da observação empírica; analogamente, narrativas simplificadas da realidade são mais facilmente compreendidas e transmitidas do que as mais complexas.

Expectativas de que o acúmulo e a difusão do conhecimento pudessem alterar esse estado de coisas existem há cerca de 2.500 anos: Platão, por exemplo, achava que tanto a votação democrática quanto o sorteio para a escolha dos ocupantes dos cargos públicos seriam métodos que condenavam as sociedades a serem governadas pelos ignorantes ou pelos charlatães. A alternativa, segundo o filósofo grego, seria uma espécie de “espistocracia”, na qual o governo é entregue aos “sábios” ou às pessoas intelectualmente mais bem preparadas.

A realidade, no entanto, é que aquelas expectativas transformadoras jamais se concretizaram, mesmo após o advento do que conhecemos como ciência moderna e ainda que sugestões como essa sejam frequentemente recuperadas em situações de crise3. Ou seja: as narrativas seguem sendo fundamentais na forma como percebemos e nos relacionamos com o mundo e nada indica que isso vá mudar.

Uma narrativa é relato sobre um acontecimento ou conjuntos de acontecimentos que podem ser reais ou imaginários.

Essa parece ser uma das razões pelas quais os regimes democráticos tenham se mostrado historicamente tão longevos: neles as mais diversas narrativas acerca da realidade, muitas delas falsas ou contraditórias entre si, encontram terreno adequado para se proliferar e podem, de forma legítima, disputar espaço em corações e mentes. Em nenhum outro tipo de regime isso é possível.

Nesse sentido, como argumentou David Runciman, o grande mérito das democracias não é produzir sempre as melhores respostas, mas permitir que as pessoas convivam com as consequências de suas escolhas e, se assim desejarem, modificá-las de tempos em tempos. Em outros termos, diz Runciman, “a grande força de longo prazo das democracias modernas é sua capacidade de mudar de rumo quando as coisas dão errado”.

Pode parecer pouco, mas não é. Tome-se, por exemplo, a alternativa que Runciman denomina “autoritarismo pragmático do século XXI”, aquela que oferece benefícios socioeconômicos em troca de direitos civis e políticos, como no caso da China4. O regime autoritário liderado pelo Partido Comunista Chinês se legitima perante a sociedade através de crescimento econômico acelerado e da melhora progressiva nas condições de vida de sua imensa população (cerca de 1,4 bilhão de pessoas), ao longo das últimas quatro décadas.

Os problemas podem começar a surgir quando esses benefícios econômicos não puderem mais ser oferecidos em barganha. A China já é a segunda economia do mundo e não poderá crescer de maneira acelerada por muito mais tempo: a taxa de crescimento anual da economia, que já foi de 12%, está na casa dos 6%, o que ainda é muito; o que poderá acontecer quando ela atingir os níveis das economias desenvolvidas, na casa dos 2% ou 3% anuais?

Os protestos em Hong Kong se iniciaram como resposta à tramitação de projeto de lei de extradição que, se aprovado, permitiria a extradição de suspeitos do território para a China continental. No entanto, mesmo após a retirada definitiva do projeto de lei em setembro de 2019, os protestos não arrefeceram e se converteram em um movimento mais amplo pró-democracia.

Além disso, o governo estabeleceu como meta, em 2015, acabar com a pobreza até 2020, e tudo indica que irá cumpri-la. Haverá, portanto, uma moeda de troca a menos a partir de 2021.

Isso significa que o regime chinês, no médio prazo, precisará de outras fontes de legitimidade que não o crescimento econômico acelerado e o combate à pobreza. A população alimentada e empregada poderá começar a se mobilizar por coisas mais comezinhas como liberdades civis e políticas – como vem ocorrendo em Hong Kong desde março de 20195. O regime terá condições de ceder? Poderá se legitimar no poder de outras formas?

Wellington Nunes

Cientista político. Atualmente participa de um programa de pós-doutoramento na Universidade Federal do Paraná (UFPR), onde atua como professor e pesquisador.

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