A economia da desinformação

Por que é tão difícil combater a desinformação?

Diferentes respostas podem ser oferecidas à essa questão, baseadas em fatores de influência os mais variados. Vou me referir aqui aos três que, a meu ver, conferem as maiores dificuldades ao enfrentamento do problema. Este texto, portanto, não pretende ser portador de boas notícias, mas tão-somente contribuir para o real dimensionamento da empreitada.

Antes de tratar das más notícias, no entanto, convém começar com uma questão básica: o que é desinformação? Não é difícil imaginar que inúmeras respostas possam ser oferecidas à essa questão e que, casos fossem elencadas nos parágrafos seguintes, apenas serviriam para entediar e confundir o leitor.

Em vez disso, basta dizer aqui que, embora possa assumir diferentes formas, o fenômeno da desinformação tem a ver – via de regra – com situações nas quais o conteúdo factual da mensagem torna-se menos importante do que seu impacto imediato. Este, como se sabe, é medido nos dias correntes pelo número de reações (visualizações, curtidas, compartilhamentos, etc.) que é capaz de gerar.

E aqui vai a primeira má notícia para aqueles que sinceramente se preocupam com os efeitos negativos que a disseminação da desinformação pode causar nas mais variadas esferas da vida cotidiana e estão dispostos a fazer algo a respeito: o impacto de mensagens baseadas em informações enviesadas ou propriamente falsas é muito maior do que o daquelas que se baseiam em conteúdos verdadeiros.

Caso o leitor, por alguma razão, tenha acabado de desembarcar no século XXI e, portanto, ainda tenha alguma dúvida em relação a isso, basta comparar o alcance e a velocidade de propagação, em qualquer rede social, dos conteúdos baseados em notícias falsas (fake news) e daqueles baseados em suas respectivas checagens.

A segunda má notícia é que a difusão acelerada de mensagens baseadas em conteúdos falsos ou enviesados tem menos a ver com fatores sociais (como os níveis de renda e de educação das populações) do que com certa predisposição psicológica: o homo sapiens, como notou o historiador israelense Yuval Harari, prefere perceber o mundo pelas lentes das narrativas, em vez de fazê-lo pela observação sistemática da realidade; adicionalmente, preferimos, via de regra, as narrativas mais simples àquelas mais complexas.

Narrativas, como se sabe, contam histórias e utilizam para isso um conjunto de acontecimentos que podem ser reais ou imaginários. A atividade científica, por sua vez, também conta histórias, mas seu método exige que estas coincidam com a realidade observável.

Por que as narrativas nos parecem mais atraentes do que a observação sistemática da realidade? E por que as narrativas mais simples nos parecem mais atraentes do que as mais complexas?

Segundo dados da Reuters Institute Digital News Report, referentes ao ano de 2018, o Brasil aparece em terceiro lugar no ranking de “auto exposição” as Fake News. Segundo o relatório, 35% dos brasileiros disseram ter consumido informações completamente inventadas.

Num caso e noutro a lógica explicativa é a mesma: narrativas podem ser construídas muito mais rapidamente e ser bem mais persuasivas do que o estoque de informações oriundo da observação empírica; analogamente, narrativas simplificadas da realidade são mais facilmente compreendidas e transmitidas do que as mais complexas.

Do ponto de vista evolutivo, isso faz enorme diferença: basta lembrar que a espécie humana tem cerca de trezentos mil anos; a ciência moderna, por sua vez, algo em torno de cinco séculos. Isso quer dizer que as narrativas acerca da realidade tem desempenhado um papel fundamental em nossa trajetória – sobretudo até o início da era moderna.

Desde então, a importância da atividade científica (responsável pelo estoque de conhecimento construído através da observação sistemática e cuidadosa da realidade) tem se expandido constantemente. Isso não significa, no entanto, que as narrativas tenham deixado de ser relevantes para compreender a forma como nos relacionamos com a realidade à nossa volta.

A propósito: expectativas de que o acúmulo e a difusão do conhecimento pudessem alterar esse estado de coisas existem há pelo menos 2.500 anos. Platão, por exemplo, achava que tanto a votação democrática quanto o sorteio para a escolha dos ocupantes dos cargos públicos eram métodos que condenavam as sociedades a serem governadas pelos ignorantes ou pelos charlatães. A alternativa seria uma espécie de “espistocracia”1, na qual o governo é entregue aos “sábios” ou às pessoas intelectualmente mais bem preparadas.

A realidade, no entanto, é que essas expectativas transformadoras jamais se concretizaram, mesmo transcorridos 500 anos após o advento do que conhecemos como ciência moderna. Em outros termos, as narrativas seguem sendo fundamentais na forma como percebemos e nos relacionamos com o mundo. E mais: nada indica que isso vá mudar.

O tema das Fake News ganhou atenção das autoridades eleitorais no Brasil. A preocupação é o crescente volume de informações falsas que circularam na eleição de 2018 e podem ter capacidade de influir no resultado eleitoral

A terceira má notícia para quem pretende combater a desinformação é, talvez, aquela que torna a batalha mais difícil de ser vencida: a desinformação é muito lucrativa. Para entender isso, é preciso, antes, compreender como os conteúdos (verdadeiros ou falsos) se propagam na internet.

A lógica que impulsiona os negócios na rede é a da segmentação de audiência: em vez de um anunciante investir grandes quantidades de dinheiro para produzir campanhas publicitárias convencionais e veiculá-las em meios de comunicação tradicionais (rádio e televisão), ele pode optar por produzir anúncios sob medida, para uma audiência previamente segmentada; isso lhe permite, ao mesmo tempo, alavancar as vendas e economizar recursos com publicidade – já que os custos envolvidos nesse negócio são muito mais baixos do que os da propaganda tradicional.

Esse processo de segmentação de audiência se tornou possível porque todo tipo de plataforma online – redes sociais (como Facebook e Instagram), servidores de busca (como Google e Mozila), varejistas e compartilhadores de conteúdo (Amazon, NetFlix e Spotfy) – operam com base em um processo de filtragem de bolhas (filter bubbles): os dados que fornecemos quando utilizamos essas plataformas são processados por algoritmos que nos separam em grupos (com diferentes perfis), com base em critérios como nossas buscas na rede, hábitos de consumo, lugares que visitamos, conteúdos que curtimos e compartilhamos, vídeos que assistimos, livros que lemos e por aí vai…

Uma vez segmentadas, essas bolhas de audiência são constantemente estimuladas para 1) manter os usuários navegando pelo maior tempo possível e 2) gerar reações (cliques, seguidores, curtidas, compartilhamentos, etc.) Isso porque esses dois fatores tem enorme potencial para geração de receitas: por meio da venda de anúncios publicitários com base no potencial de exposição e de influência do canal, da monetização de dados (venda ou compartilhamento de bases de dados), venda direta de produtos online, etc.

É isso que Craig Silverman, da plataforma BuzzFeed, costuma chamar de “economia da atenção”. Não é difícil perceber o potencial econômico desse negócio: empresas de consultorias da área estimam que a chamada economia digital responde atualmente por um quarto (25%) da economia global2.

E o que isso tem a ver com a desinformação? Tudo. Como a psicologia social e neurociência não se cansam de mostrar, nós reagimos de maneira muito mais intensa a situações inesperadas, chocantes ou mesmo bizarras, do que a trivialidades cotidianas. Isso quer dizer que uma narrativa simples e equivocada sobre um evento qualquer tem um potencial mobilizador muito maior do que a descrição factual do mesmo.

Dito de maneira direta: se o objetivo for manter o usuário online e ampliar suas reações aos conteúdos aos quais ele se expõe, a desinformação (conteúdos enviesados ou falsos) é muito mais eficaz do que a informação. E qualquer empresa que opera na internet sabe disso.

Em suma, talvez a principal razão pela qual seja tão difícil combater a desinformação é que esse é um negócio muito lucrativo.

Wellington Nunes

Cientista político. Atualmente participa de um programa de pós-doutoramento na Universidade Federal do Paraná (UFPR), onde atua como professor e pesquisador.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s