Alguns desdobramentos do avanço tecnológico para as temáticas do desenvolvimento e da educação

Embora esteja longe de ser uma novidade histórica, o progresso tecnológico acelerado tal qual o conhecemos hoje tem em sua origem, ainda que não seja possível precisar uma data, já que se trata de um processo, um conjunto de transformações que pode ser localizado nas de décadas de 1960 e 1970. Não é preciso nos determos muito aqui, basta dizer que as transformações ocorridas nesse período foram de tal ordem que provocaram um transição entre paradigmas tecnológicos – do metal-mecânico (que envolveu a tecnologia necessária para produzir automóveis, por exemplo) para o da microeletrônica (que permitiu a produção dos computadores e dos smartphones que utilizamos hoje, entre muitas outras coisas).

Essa verdadeira revolução tecnológica, como seria de se esperar, não causou efeitos apenas nas áreas mais diretamente envolvidas com a tecnologia e seus avanços, como algumas engenharias e a indústria da informática. Houve desdobramentos muito mais amplos e profundos nas mais diversas áreas – dos quais nos interessam aqui aqueles relacionados às temáticas do desenvolvimento e da educação.

Começando pelo primeiro desses temas, há pelo dois tipos de desdobramento a serem considerados. O primeiro deles tem a ver com o próprio conceito de desenvolvimento. A partir de meados da década de 1970, o desenvolvimento deixa de ser visto, como o fora durante os anos 1950 e 1960, enquanto sinônimo de crescimento econômico – medido quase que exclusivamente pela expansão da renda per capta2. Isso não significa, é claro, que o crescimento tenha deixado de ser importante, mas apenas que o desenvolvimento passou a ser visto como um fenômeno mais amplo e complexo, cuja análise deve envolver, portanto, outros fatores além da expansão da renda.

Uma referência básica aqui é o livro Desenvolvimento como liberdade, do economista indiano Armatya Sen, laureado com o prêmio Nobel em 1998. Nessa perspectiva, de maneira muito resumida, o desenvolvimento tem a ver com expansão das liberdades individuais que as pessoas valorizam e tem razão em valorizar, como chegar a vida adulta tendo boas condições de saúde e um bom emprego. Isso poderia ser possível mesmo para alguém que não tenha tido a sorte de nascer em uma família que desfrutasse de altos níveis de renda, desde que tenha sido permitido a esse indivíduo, durante a infância e a adolescência, viver em boas condições sanitárias e acessar serviços básicos de saúde e educação.

Essa mudança na forma de conceber o desenvolvimento, como seria de se esperar, provocou modificações importantes nas formas de medi-lo: atualmente, seu principal indicador internacional, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), contempla, entre outras coisas, dados sobre a expectativa de vida e os anos de estudos das pessoas.

Alunos do PRONATEC (Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego) no estado do Ceará

Ainda na seara do desenvolvimento, a revolução tecnológica referida a cima provocou outro desdobramento a ser considerado e ele diz respeito à forma como as pessoas trabalham e geram renda. O processo acelerado de inovação tecnológica no qual vivemos, sobretudo em áreas como microeletrônica, informática e telecomunicações, ao afetarem a forma pela qual produtos e serviços são produzidos e comercializados, também afetam a maneira como trabalhamos para produzi-los e comercializá-los. Esse conjunto de transformações, chamado pelos economistas de reestruturação produtiva, tem impacto direto nos tipos de conhecimentos, habilidades e competências que as pessoas precisam adquirir para conseguir trabalho.

O que nos conduz ao último tema a ser tratado aqui: a educação. Considerando que os tipos e os níveis de conhecimentos, habilidades e competências que as pessoas adquirem influenciam diretamente nos tipos de trabalhos que elas podem executar, como dito acima, é forçoso concluir que isso também interfere nos níveis de renda dos quais essas pessoas poderão usufruir ao longo da vida. Isso porque profissionais que atuam em atividades mais estreitamente relacionadas com os avanços tecnológicos referidos acima (engenheiros, programadores e prestadores de serviços altamente especializados) são melhor remunerados do que aqueles que atuam em atividades mais tradicionais e que exigem menos recursos técnicos (motoristas, operários não especializados, trabalhadores braçais, etc.).

Adicione-se a isso o fato de que conhecimentos, habilidades e competências são adquiridos através do estudo e da experiência, e a educação torna-se, nesse contexto, uma questão incontornável. Dito de outro modo, sem educação e treinamento adequados, no contexto de avanço tecnológico acelerado no qual vivemos, as pessoas não tem as condições mínimas necessárias para acompanhar as transformações no mercado de trabalho e serem capazes de gerar renda nos níveis por elas desejados

Wellington Nunes

Cientista político. Atualmente participa de um programa de pós-doutoramento na Universidade Federal do Paraná (UFPR), onde atua como professor e pesquisador.

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